A guerra de travesseiros e a leveza que ficou do meu pai:
Tem lembranças que ficam guardadas no fundo do baú da nossa memória. Algumas vêm acompanhadas de saudade, outras de lágrimas, mas existem aquelas que, quando a gente abre a gaveta do passado, parecem sair correndo pela casa igual criança em dia de bagunça. Essa é uma delas. 😂 Minha mãe sempre foi muito habilidosa com artesanato. Ela olhava para praticamente qualquer coisa e já enxergava uma possibilidade de transformar aquilo em outra coisa.
Na minha infância, por exemplo, ainda não existia essa facilidade de comprar leite em caixa como temos hoje. O leite vinha em saquinhos plásticos e, claro, também existia o famoso Leite Ninho. Mas Leite Ninho… Ah, amiga!Leite Ninho era coisa de gente rica! 😂😂😂 Pelo menos era essa a impressão que eu tinha naquela época.Minha mãe, que nunca desperdiçava nada, começou a guardar os saquinhos de leite depois de usados. Ela lavava tudo muito bem para tirar aquela gordura do leite e depois transformava os saquinhos em bolsas.
Minha mãe era dessas: se desse para reaproveitar, ela reaproveitava.
Um dia, ela precisava ir ao centro do bairro, onde ficavam as lojas de tecidos e aviamentos. Então deixou meu pai “tomando conta” de nós três: eu, minha irmã Carla e meu irmão Eduardo. Só que minha mãe cometeu um pequeno erro de cálculo.Ela achou que estava deixando três crianças sob a responsabilidade do pai. Na verdade, estava deixando quatro crianças. Porque meu pai era pior do que nós três juntos! 😂 Assim que ele teve certeza de que estávamos sozinhos, foi até o quarto, pegou alguns travesseiros e, de repente, anunciou: GUERRA DE TRAVESSEIROOOO! Pronto.Era tudo o que nós precisávamos ouvir.Cada um pegou um travesseiro e começou a tacar no outro.Era travesseiro voando para um lado, criança correndo para o outro, gargalhada para todo canto… Começamos na sala e, depois de um tempo, fomos para o quarto dos meus pais.Subimos na cama e continuamos a guerra.E foi tanta pancada de travesseiro que, quando percebemos, tinha espuma espalhada pela casa inteira.Aquela casa virou um verdadeiro campo de batalha. Só que, para nós, aquilo era diversão.Nós ríamos, corríamos, gritávamos e continuávamos jogando travesseiro uns nos outros.E meu pai?Meu pai estava se divertindo tanto quanto nós.Talvez até mais. 😂 Depois de um tempão naquela festa, finalmente ouvimos a chave na porta.Minha mãe tinha chegado.E aí… A festa acabou. Ela entrou, olhou aquela bagunça, viu espuma para todo lado e começou a brigar com todo mundo.Com a gente, porque estávamos envolvidos na guerra.E com meu pai, porque ele era o adulto responsável.Lembro dela dizendo que ele era pior do que nós três juntos.E provavelmente ela estava certa. 😂 Meu pai ficou quietinho por alguns segundos. Até que olhou para nós e falou baixinho:
— Xiiii… a festa acabou. Foi o suficiente. Nós caímos na gargalhada. Minha mãe brava, meu pai tentando segurar o riso e nós três quase morrendo de tanto rir.
Hoje, quando lembro daquela cena, não penso na espuma espalhada pela casa. Não penso na bronca.Nem mesmo na bagunça.Eu penso no meu pai.E percebo que é justamente essa leveza que sinto falta dele.Meu pai, naquele momento, não estava preocupado com a sala limpa, com a cama arrumada ou com a espuma que depois teria que ser recolhida.Ele simplesmente entrou na brincadeira.Ele nos deu uma lembrança.E talvez essa seja uma das maiores heranças que alguém pode deixar: momentos que continuam vivos dentro da gente mesmo muitos anos depois.A vida adulta vai chegando, as responsabilidades aparecem, a casa precisa ser organizada, os problemas precisam ser resolvidos, o tempo passa…E a gente vai ficando sério demais.Por isso, algumas vezes, precisamos abrir o baú das nossas lembranças e reencontrar aquela criança que ainda sabe rir de uma guerra de travesseiros.Não precisamos viver presos ao passado.Mas podemos carregar conosco aquilo que o passado deixou de bonito.Eu carrego a lembrança de um pai que sabia brincar.Um pai que, por alguns minutos, deixou de ser simplesmente o adulto responsável e virou criança junto com os filhos.E hoje, quando sinto saudade dele, gosto de lembrar assim. Não pela tristeza da ausência.Mas pela alegria da presença que um dia existiu.Talvez seja por isso que algumas lembranças nunca envelhecem.Elas continuam fazendo barulho dentro da gente. Às vezes, até dá para ouvir baixinho: “Xiiii… a festa acabou!” 😂❤️ E a gente sorri.Porque a festa pode ter acabado naquele dia.Mas a lembrança ficou para sempre.
Uma reflexão: Nem toda herança cabe em uma caixa. Algumas heranças são feitas de histórias, risadas, conselhos, abraços, brincadeiras e pequenos momentos que pareciam insignificantes na época, mas que anos depois descobrimos que eram preciosos. Que saibamos valorizar enquanto ainda temos tempo. E que, quando alguém que amamos partir, possamos lembrar também das risadas, das brincadeiras e dos dias felizes. Porque saudade não precisa ser feita somente de lágrimas. Às vezes, ela também pode vir acompanhada de um sorriso.
Oração: “Senhor, obrigada pelas pessoas que o Senhor colocou em nossa história. Obrigada pelos momentos simples que se transformaram em grandes lembranças. Ajuda-nos a valorizar mais o tempo com quem amamos, a rir mais, abraçar mais e guardar menos coisas para depois. E quando a saudade chegar, permita que ela venha acompanhada das boas lembranças. Que possamos lembrar daqueles que amamos não somente pela ausência, mas também por tudo de bonito que deixaram em nós. Amém.” “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” Eclesiastes 3:1
Com carinho,
Sandra Rochedo,
Blog,S R Testemunhos, Transformando Limites.
❤️ Se essa história fez você lembrar de alguém especial, curta, comente e compartilhe. Talvez alguém também esteja precisando abrir o baú das boas lembranças hoje.
Para continuar a leitura no SR Testemunhos:





