Hoje faz seis anos que meu pai partiu para o Senhor. E mesmo sendo um dia de comemoração, um daqueles dias em que a família deveria estar reunida, o coração ficou apertado. A saudade apareceu forte, trazendo lembranças de uma pessoa que deixou muito mais do que fotografias: deixou histórias, risadas, carinho e muitas pessoas que ainda sentem sua falta. Meu pai era assim.Animado, brincalhão, carinhoso e, principalmente, muito amigo.Quando se sentia sozinho, ele ligava para alguém. Às vezes, não tinha assunto nenhum. Era simplesmente para conversar.Ele ligava para mim, para minhas filhas e para outras pessoas da família. Estou sozinho e não tenho nada para fazer, então resolvi ligar. E a gente começava a rir. Às vezes ele mesmo contava que já tinha ligado para outras pessoas também, só para “falar nada”. Risos. Esse era o jeito dele de estar perto.Ele também tinha uma característica que acabou virando uma de suas marcas registradas: trocar o nome das pessoas. Era uma confusão! Ele começava a falar e, antes de chegar ao nome certo, já tinha chamado a pessoa pelo nome de outra mulher da família. Às vezes passava por vários nomes até finalmente acertar. Comigo era assim: Célia…Não. Fulana…Também não.Até que eu falava :Sandra, pai!E nós dois caíamos na risada.Com os namorados das minhas filhas também era uma diversão.Quando elas levavam um namorado para conhecer os avós, já avisavam:Olha, meu pai vai trocar o seu nome.E não dava outra.Ele trocava mesmo!As meninas já chegavam preparadas para a confusão. Risos, E quando eu chegava, ele ainda fazia graça:Cadê o bonitinha do vovô?Eu respondia: É vovô ou é pai? E ele ria. Meu pai tinha dessas coisas.Tinha suas frases de efeito, suas brincadeiras e aquele jeito espontâneo de fazer as pessoas sorrirem.E talvez seja por isso que ele tenha sido tão amado.Ele não era apenas pai das minhas filhas.Meus sobrinhos também o chamavam de Pai.As amigas das minhas filhas o chamavam de avô.Ele acabou sendo avô de muita gente, mesmo que não existisse nenhum laço de sangue.Porque algumas pessoas conquistam esse lugar no coração simplesmente sendo quem são.Minha filha mais nova, antes de viajar para Portugal, ainda teve o carinho de levá-lo para conhecer o aeroporto.Ele queria ver os aviões de perto.E ela fez questão de proporcionar esse momento a ele.São essas pequenas coisas que hoje ganham um valor enorme.Porque quando alguém parte, percebemos que não são apenas os grandes acontecimentos que ficam na memória.Ficam os cafés da tarde.Ficam as conversas sem assunto.Ficam as brincadeiras.Ficam os nomes trocados.Ficam as risadas.Ficam os pequenos gestos de carinho.Eu me lembro de quando ia à casa dele à tarde. Eu já levava o pão e os acompanhamentos para tomarmos café .E gritava no meio do corredor, e aí seu Carlos tem café, e Ele respondia, se não tem faço um fresquinho agora.E ele ia para a cozinha preparar o café.Depois voltava com a bandeja.O pão cortado, o queijo colocado em um pratinho e a xícara de café.Era um gesto simples.Mas era o jeito dele de cuidar.Ele fazia isso com todo mundo.Meu pai era assim: gostava de receber, de conversar, de estar perto.Era muito amigo. Muito carinhoso. E os nossos amigos também adoravam estar com ele.Hoje, seis anos depois, eu consigo perceber que algumas pessoas não precisam fazer coisas extraordinárias para deixarem uma marca extraordinária em nossa vida.Elas simplesmente estão presentes.E meu pai esteve.Esteve nas conversas.Nas brincadeiras. Nos cafés da tarde.Nas ligações sem assunto.Nos encontros em família.Nas histórias. Nos nomes trocados.Nas frases engraçadas.Nos abraços.Na vida das filhas, dos sobrinhos, dos netos, dos amigos e até das amigas das netas e das filhas, que também o chamavam de avô.Talvez esse seja um dos maiores sinais de que alguém foi muito amado: quando, depois que parte, percebemos que deixou um pedacinho dele em tantas pessoas.Hoje sinto saudade.Saudade daquele homem brincalhão que ligava só porque estava sozinho.Saudade de ouvir sua voz.Saudade das confusões com os nomes.Saudade do café da tarde.Saudade das suas frases.Saudade daquele jeito tão dele de fazer todo mundo rir.E, principalmente, saudade de simplesmente poder ligar para ele. Seis anos se passaram.A vida continuou, muitas coisas mudaram, pessoas chegaram, outras partiram, mas algumas saudades não desaparecem.Elas apenas aprendem a morar dentro da gente.Hoje não quero lembrar apenas da dor de ter perdido meu pai.Quero agradecer a Deus pelo privilégio de tê-lo tido em minha vida. Quero lembrar do homem alegre, brincalhão, amigo e carinhoso que ele foi.Quero lembrar que ele foi tão amado que virou “Pai” para os sobrinhos, “avô” para as amigas das minhas filhas e deixou lembranças em pessoas que talvez nem tenham o mesmo sangue, mas carregam um pouco do seu carinho.E hoje, enquanto a saudade aperta, eu sorrio também.Porque quando penso nele, quase consigo ouvi-lo trocando todos os nomes da família até finalmente chegar ao meu: Sandra! E eu responderia:Finalmente acertou, pai! E nós dois riríamos.Talvez seja isso que o amor faz.A pessoa parte, mas algumas lembranças continuam chegando para nos visitar.E, em meio à saudade, elas conseguem arrancar um sorriso.Seis anos sem você, pai.Seis anos de saudade.Mas também seis anos de gratidão por tudo o que você foi e por todo amor que deixou.Você partiu para o Senhor, mas continua vivo nas nossas lembranças, nas nossas histórias e, principalmente, no coração de todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecer você.Saudade não é esquecer. Saudade é continuar amando alguém que já não podemos abraçar.Que Deus o tenha junto Dele, pai.E que, de alguma forma, onde você estiver, consiga saber que ainda falamos de você, ainda rimos das suas histórias e ainda sentimos muito a sua falta.
Com amor e saudade,
Sandra Rochedo,
Blog, S R Testemunhos, Transformando Limites.
Uma oração de gratidão: “Senhor, hoje eu quero agradecer. Obrigada pelo tempo que me permitiste ter meu pai ao meu lado, por todas as lembranças que ficaram, pelas conversas, pelos cafés da tarde, pelas brincadeiras e por todas as vezes que conseguimos rir juntos. A saudade ainda dói, principalmente em dias de comemoração, quando a gente gostaria de ter aquela pessoa novamente por perto. Mas hoje eu escolho agradecer mais do que lamentar. Agradecer pelo pai que tive, pelo homem alegre, brincalhão, amigo e carinhoso que ele foi. Agradecer por ele ter sido tão amado por sua família e por tantas outras pessoas que o consideravam como pai e avô. Obrigada, Senhor, porque o amor que vivemos não termina com a partida. Ele permanece nas lembranças, nas histórias e dentro do nosso coração. Cuida de nós que ficamos e nos ensina a transformar a saudade em gratidão. E que, sempre que a lembrança dele vier acompanhada de lágrimas, também possamos sorrir por tudo de bonito que vivemos juntos. Amém.”
Para continuar lendo: Se você também carrega a saudade de alguém que partiu, talvez outros textos aqui do blog possam conversar com o seu coração. Porque algumas pessoas partem, mas o amor que deixaram permanece. Leia também outros textos sobre saudade, família, lembranças e as pessoas que continuam presentes em nosso coração mesmo depois da partida.
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Sandra Rochedo





