Existe uma frase que ouvimos muito dentro das igrejas: “Somos uma família. ”Cantamos sobre união, sobre amor, sobre sermos irmãos. Damos as mãos, sorrimos, abraçamos uns aos outros e dizemos: “Estamos juntos!” E naquele momento parece realmente bonito. Mas existe uma pergunta que, às vezes, ninguém quer fazer: E quando aquilo que cantamos precisa ser colocado em prática? Porque cantar sobre amor é fácil. Abraçar alguém durante um louvor é fácil. Dizer “tamo junto” enquanto está tudo bem também é fácil. Difícil é continuar junto quando o irmão está passando por uma necessidade. Difícil é ajudar quando a pessoa não pode oferecer nada em troca. Difícil é ouvir alguém pedir socorro sem transformar aquele pedido em assunto para os outros. É aí que descobrimos se somos realmente uma família ou se apenas aprendemos a cantar como uma. Não estou dizendo que uma igreja não deve cuidar do seu espaço.É importante ter boas cadeiras, um bom som, equipamentos adequados, uma boa mídia, um telão, um ambiente organizado e tudo aquilo que pode contribuir para a realização dos cultos.E muitas vezes ouvimos:“Precisamos oferecer o melhor para Deus.”Mas eu fico pensando…Será que Deus se alegra mais com uma cadeira nova ou com uma pessoa que deixou de sofrer porque alguém decidiu estender a mão?
Será que excelência para Deus está apenas na estrutura que podemos enxergar? Ou será que também existe excelência quando tratamos uma pessoa ferida com dignidade? Quando alguém simples, em um momento difícil, pede ajuda aos irmãos que tantas vezes disseram que a amavam, que estavam juntos e que poderiam contar com eles, o que acontece? Às vezes, em vez de encontrar acolhimento, encontra julgamento. O pedido de socorro vira comentário. O comentário vira fofoca. A fofoca ganha versões. E, de repente, aquela pessoa que precisava apenas de uma mão estendida passa a ser vista como alguém que “vive pedindo”. E então eu pergunto:Onde ficaram os abraços?Onde ficou o “estamos juntos”?Onde ficou o “somos uma família”?Onde ficou o amor que cantávamos há poucos minutos?Porque é muito fácil cantar sobre irmãos unidos enquanto todos estão felizes, bem vestidos, sorrindo e participando do culto.Mas a verdadeira união aparece quando um irmão está de joelhos.Quando está sem recursos.Quando está emocionalmente cansado.Quando precisa pedir ajuda.Quando não consegue retribuir imediatamente.É nesse momento que o amor deixa de ser música e passa a ser atitude.E existe algo ainda mais triste.Quando a pessoa pede ajuda e, além de não receber, ainda tem sua imagem prejudicada dentro da própria comunidade. Sua história passa a ser contada por outras pessoas.Sua necessidade é apresentada de uma maneira diferente.Sua dignidade vai sendo diminuída aos poucos.E aquilo que começou como um simples pedido de socorro pode terminar em exclusão.A pessoa deixa de ser convidada.Deixa de participar.Passa a ser vista como alguém inconveniente.Como se pedir ajuda tivesse se transformado em uma espécie de pecado.E talvez seja justamente aí que precisamos parar e refletir.Que tipo de família somos?Uma família que só acolhe enquanto tudo está bem?Uma família que abraça enquanto a pessoa consegue sorrir?
Uma família que diz “conte comigo”, mas desaparece quando realmente é necessário contar? Porque família de verdade não é aquela que está presente apenas na fotografia. É aquela que permanece quando a fotografia não é bonita. É aquela que conhece a fragilidade do outro e não usa essa fragilidade contra ele.É aquela que sabe ouvir sem espalhar.Que sabe ajudar sem humilhar.Que sabe dizer “não posso ajudar” sem destruir a dignidade de quem pediu.E principalmente, é aquela que não transforma a necessidade de alguém em motivo para julgá-lo.Talvez esteja na hora de entendermos que a igreja não é apenas o prédio.Não são as cadeiras.Não é o telão.Não é o som.Não é a mídia.Não são as paredes. A igreja são pessoas.E se investimos tanto para deixar o prédio cada vez melhor, talvez também precisemos investir mais em algo que não aparece nas fotografias: o caráter.: Porque podemos ter o melhor equipamento, o melhor som, o melhor telão e uma estrutura impecável.Mas se alguém entra pela porta precisando de amor e sai de lá carregando vergonha, humilhação e rejeição, alguma coisa está muito errada.A excelência que oferecemos a Deus também deveria aparecer na maneira como tratamos aqueles que Ele colocou ao nosso lado. Não adianta cantar: “Somos irmãos. ”Se, quando um irmão precisa de nós, respondemos: “Cada um que se vire.”Não adianta cantar sobre união se a dificuldade do outro nos incomoda.Não adianta dizer “tamo junto” se estamos juntos apenas enquanto é conveniente. E talvez, só talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis que podemos fazer a nós mesmos:Se amanhã eu estiver passando por uma grande necessidade, encontrarei na igreja que chamo de família o mesmo amor que hoje ofereço quando tudo está bem?Porque a vida muda.Hoje alguém pode estar ajudando.Amanhã pode ser essa pessoa quem precise de ajuda.Hoje alguém pode estar de pé. Amanhã pode precisar que alguém o ajude a levantar. Hoje alguém pode estar sorrindo no culto.Amanhã pode estar chorando escondido.E quando esse dia chegar, talvez não precisemos de uma música dizendo que somos irmãos.Talvez precisemos apenas de alguém que realmente seja.Que Deus nos ensine a parar de apenas cantar aquilo que ainda precisamos aprender a viver.Porque, no fim das contas, família não é quem diz “tamo junto”. Família é quem permanece junto quando realmente precisamos.
Uma reflexão para guardar: Antes de perguntar quanto uma pessoa pode contribuir para a igreja, talvez devêssemos perguntar: Quanto amor somos capazes de oferecer a uma pessoa que, naquele momento, não tem nada para nos oferecer? Porque talvez seja justamente aí que descobrimos se estamos servindo apenas a uma instituição ou se realmente estamos vivendo o amor que Jesus ensinou.
Oração: “Senhor, ensina-nos a viver aquilo que cantamos. Que o nosso abraço seja verdadeiro, que nossas palavras sejam sinceras e que o nosso “estamos juntos” não desapareça quando chegar o tempo da dificuldade. Livra-nos de transformar a necessidade dos outros em fofoca, julgamento ou motivo de exclusão. Dá-nos sensibilidade para enxergar quem está sofrendo em silêncio e coragem para estender a mão sem humilhar. Que nossas igrejas sejam lugares onde as pessoas encontrem não apenas boas estruturas, mas também acolhimento, misericórdia, respeito e amor. E que, quando dissermos “somos uma família”, nossas atitudes possam confirmar aquilo que nossos lábios estão dizendo. Amém.”
Sandra Rochedo,
Blog, S R Testemunhos, Transformando Limites.
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