Há uma diferença muito grande entre se afastar da igreja e se afastar de Jesus. Às vezes, as pessoas olham para alguém que deixou de frequentar uma congregação e rapidamente tiram suas próprias conclusões:“Esfriou na fé.”“Está desviada.”“Não quer mais saber de Deus.”“Alguma coisa aconteceu com ela.”Mas nem sempre é assim.Existem pessoas que continuam amando a Deus, continuam orando, continuam lendo a Bíblia, continuam acreditando em Jesus, mas já não conseguem permanecer dentro de determinado ambiente de igreja.E isso pode acontecer quando as atitudes de uma liderança ferem, decepcionam, humilham, ignoram ou fazem uma pessoa perder a confiança na instituição. É preciso ter cuidado com isso.Porque quem está na liderança não está apenas ocupando uma posição. Está lidando com pessoas.Pessoas que chegam à igreja carregando histórias que ninguém conhece.Pessoas que já foram feridas em outros lugares.Pessoas que estão tentando reconstruir a própria vida.Pessoas que talvez estejam procurando acolhimento, pertencimento, uma palavra de esperança ou simplesmente um lugar onde possam respirar sem medo de serem julgadas.E quando encontram justamente o contrário, alguma coisa dentro delas pode se quebrar.Não necessariamente a fé em Jesus.Mas a confiança nas pessoas.A confiança na liderança.A confiança naquela instituição.E essa diferença precisa ser compreendida.
Liderança também pode machucar: É muito fácil falar sobre o amor de Cristo quando tudo está bem. É fácil cantar sobre união, abraçar os irmãos, falar que somos uma família e dizer que ninguém está sozinho. O difícil é viver isso quando alguém realmente precisa. Quando uma pessoa passa por uma dificuldade financeira. Quando está doente. Quando perdeu alguém. Quando está emocionalmente fragilizada. Quando cometeu um erro e já se arrependeu. Quando precisa de ajuda, mas não tem condições de oferecer nada em troca. É nesses momentos que descobrimos se aquilo que pregamos também faz parte das nossas atitudes. Porque palavras bonitas podem emocionar durante um culto. Mas são as atitudes fora do púlpito que muitas vezes ficam gravadas na memória de uma pessoa. Uma palavra dura pode ser esquecida. Uma música pode ser esquecida. Um sermão pode ser esquecido. Mas a maneira como alguém foi tratado quando mais precisava de ajuda dificilmente será esquecida.
Quando a pessoa começa a desconfiar da igreja: Talvez uma das consequências mais dolorosas seja quando alguém começa a pensar: “Se é isso que acontece dentro da igreja, será que eu posso confiar nessas pessoas?” E, pouco a pouco, aquela pessoa começa a se afastar. Primeiro deixa de participar de algumas atividades. Depois deixa de procurar a liderança. Depois deixa de contar o que está acontecendo em sua vida. Até que um dia simplesmente não está mais ali. E então surgem os julgamentos. “Ela abandonou a igreja.” “Ela está rebelde.” Ela não quer compromisso com Deus.” Mas talvez ninguém tenha parado para perguntar: “O que aconteceu para você chegar até aqui?” Essa pergunta poderia mudar muita coisa. Porque talvez aquela pessoa não tenha abandonado Jesus. Talvez ela esteja apenas cansada de ser machucada por pessoas em nome de Jesus. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Jesus não é a instituição; Precisamos aprender a separar aquilo que Jesus ensinou daquilo que seres humanos fazem. Jesus ensinou amor. Perdão. Misericórdia. Acolhimento. Compaixão. Humildade. Cuidado. Mas nós somos imperfeitos. Lideranças são formadas por seres humanos. Igrejas são formadas por seres humanos. E seres humanos podem errar. Podem tomar decisões injustas. Podem agir com favoritismo. Podem ser insensíveis. Podem ouvir apenas um lado da história. Podem proteger uma imagem institucional e esquecer que, por trás daquela situação, existe uma pessoa. Reconhecer isso não significa falar mal da igreja. Significa reconhecer que a igreja é composta por pessoas que precisam continuar aprendendo a viver aquilo que pregam. E talvez uma das maiores responsabilidades de uma liderança seja justamente perceber quando suas atitudes estão produzindo feridas.
Nem todo afastamento é afastamento de Deus: Essa frase deveria ser lembrada antes de julgarmos alguém. Nem todo afastamento da igreja significa afastamento de Deus. Às vezes, uma pessoa precisa se afastar de um ambiente para conseguir recuperar a própria paz. Precisa de tempo para reorganizar seus pensamentos. Precisa respirar. Precisa entender o que aconteceu. Precisa reconstruir a confiança. E talvez, nesse processo, descubra que sua fé não dependia daquela instituição. Porque Jesus continuava ali. Quando as pessoas não ligaram, Jesus continuou ouvindo. Quando alguém fechou uma porta, Jesus continuou sendo abrigo. Quando houve julgamento, Ele continuou conhecendo o coração. Quando alguém se sentiu abandonado, Ele continuou presente. Talvez a pessoa tenha perdido a confiança em uma liderança. Mas isso não significa que perdeu a confiança em Cristo.
Liderar é cuidar de pessoas: A liderança deveria entender que cada decisão pode alcançar muito mais do que imagina. Uma decisão tomada em uma sala pode mudar a vida de alguém. Uma palavra dita sem pensar pode causar uma ferida profunda. Uma omissão pode fazer uma pessoa se sentir invisível. E uma atitude de cuidado pode fazer exatamente o contrário: pode devolver esperança. Por isso, antes de perguntar: “Por que essa pessoa foi embora?” Talvez seja necessário perguntar: “Como ela foi tratada enquanto esteve aqui?” Antes de dizer: “Ela está afastada de Deus.” Talvez seja melhor perguntar: “Será que nós fizemos alguma coisa que a fez perder a confiança em nós?” Essa não é uma pergunta fácil. Mas uma liderança madura não deveria ter medo de fazê-la. Porque reconhecer um erro não diminui uma liderança. Pelo contrário. Demonstra humildade.
E se alguém estiver vivendo isso? Se você está passando por uma situação assim, quero lhe dizer uma coisa: Não permita que a decepção com pessoas determine aquilo que você acredita sobre Jesus. Pessoas podem falhar. Lideranças podem falhar. Instituições podem falhar. Mas isso não significa que Deus falhou com você. Se precisar de um tempo para se afastar de um ambiente que está lhe fazendo mal, faça isso com sabedoria, sem transformar sua dor em ódio. Cuide do seu coração.
Não permita que a ferida transforme você naquilo que um dia lhe machucou. E, principalmente, não confunda a atitude de pessoas com o caráter de Cristo. Talvez você precise reconstruir sua relação com a igreja. Talvez precise encontrar outro lugar. Talvez precise apenas de tempo. Mas continue buscando a Deus. Porque sua caminhada com Jesus é muito maior do que qualquer instituição.
Para quem está na liderança: E para quem lidera, fica também uma reflexão. Talvez exista alguém que você pensa que simplesmente “se afastou”. Talvez essa pessoa esteja esperando há muito tempo que alguém perceba que ela foi ferida. Talvez ela não queira uma explicação. Talvez queira apenas ser ouvida. Talvez não precise de uma cobrança. Talvez precise de um abraço. Talvez não precise ouvir um versículo. Talvez precise ouvir: “Eu sinto muito. Talvez nós tenhamos errado com você.” Há momentos em que uma simples atitude de humildade pode reconstruir uma ponte que parecia destruída. E se não for possível reconstruí-la, pelo menos aquela pessoa saberá que alguém teve a coragem de reconhecer sua dor.
Uma última reflexão: A igreja deveria ser um lugar onde pessoas encontram Deus, mas também precisam encontrar humanidade. Não podemos falar tanto sobre o amor de Cristo e, ao mesmo tempo, tratar pessoas como números, problemas, cargos ou situações inconvenientes. Porque cada pessoa que entra pela porta de uma igreja tem uma história. E cada pessoa que sai também leva uma história. Que a nossa presença nunca seja o motivo pelo qual alguém passa a desconfiar da igreja. Que nossas atitudes não façam alguém pensar que precisa escolher entre preservar sua saúde emocional e permanecer em determinado ambiente religioso. E que, mesmo quando alguém precisar ir embora, possa levar consigo uma certeza: “As pessoas podem ter falhado comigo, mas Jesus não falhou.” Porque a nossa fé não pode estar fundamentada na perfeição das pessoas. Ela precisa estar fundamentada em Cristo. E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de quem lidera: não ser um obstáculo entre uma pessoa ferida e o Deus que ela ainda deseja encontrar.
Uma oração: “Senhor, dá-nos sabedoria para compreender que por trás de cada pessoa existe uma história que muitas vezes desconhecemos. Ensina-nos a liderar com humildade, a ouvir antes de julgar e a cuidar antes de cobrar. Se em algum momento nossas atitudes feriram alguém, dá-nos coragem para reconhecer nossos erros e pedir perdão. E para aqueles que se afastaram de uma igreja por causa de uma dor, lembra-lhes que a decepção com pessoas não significa abandono da Tua presença. Que nenhuma ferida causada por seres humanos seja capaz de apagar aquilo que o Senhor plantou em seus corações. Que possamos aprender a amar não apenas com palavras, mas também com atitudes. Em nome de Jesus. Amém.”
Sandra Rochedo,
Blog, S R Testemunhos, Transformando Limites.
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