Eu achei que meu AVC era culpa minha — e passei dez anos acreditando nisso:
Durante muito tempo, eu carreguei uma culpa que talvez ninguém soubesse explicar direito. Eu achava que os meus AVCs tinham acontecido porque eu não tinha conseguido lidar com as coisas. Eu estava vivendo uma época de muito estresse. Estava envolvida com muitas responsabilidades, tentando fazer o meu melhor, querendo que as coisas funcionassem e acreditando que conseguiria resolver alguns problemas sozinha. Hoje, olhando para trás, consigo reconhecer que cometi erros. Eu deveria ter pedido ajuda.Deveria ter conversado mais com a liderança.Deveria ter entendido que algumas situações não precisavam ser enfrentadas somente por mim.Mas uma coisa é reconhecer os nossos erros.Outra coisa completamente diferente é transformar cada erro em uma sentença contra nós mesmos. E foi exatamente isso que eu fiz.Eu comecei a acreditar que tudo o que havia acontecido comigo era consequência das minhas escolhas.Naquela época, algumas pessoas estavam ao meu lado, me ajudavam e gostavam de mim. Mas também haviam pessoas que criavam conflitos e faziam de tudo para nos atacar. Eu tentava administrar tudo. E, quando eu falava que estava cansada, preocupada ou que alguma coisa estava me fazendo mal, muitas vezes ouvia que estava exagerando. Que eu era dramática. Que eu queria tudo perfeito. Que eu era a braba. o tempo, comecei a duvidar de mim mesma.Se eu sentia alguma coisa, pensava: “Será que estou exagerando? Se alguma coisa me incomodava:“Talvez eu esteja fazendo drama. ”E então comecei a me calar. Eu parei de contar o que sentia.Parei de falar sobre algumas coisas que me machucavam.E fui guardando tudo dentro de mim.Até que vieram os AVCs.E depois deles, além de precisar aprender novamente a viver com um corpo que já não respondia da mesma maneira, eu comecei uma outra batalha:a batalha contra a culpa.Eu pensava:“Será que isso aconteceu porque eu não soube lidar com as coisas?”“Será que Deus está me mostrando que eu não era tão boa quanto pensava?”“Como posso falar de cura se eu continuo paralisada?”“Como posso pregar sobre fé se fui eu quem passou por isso?”E uma pergunta começou a me perseguir:“Será que ainda sou digna de falar de Jesus?”Por muito tempo, eu achei que a resposta fosse não.Eu tinha sido chamada de pastora.Eu tinha ensinado. Eu tinha falado da Palavra.Eu tinha orado por pessoas.E agora eu estava ali, com limitações físicas, precisando de ajuda para algumas coisas e tentando entender a minha própria vida.Dentro da minha cabeça, parecia existir uma contradição.Eu falava que Deus cura, mas eu continuava paralisada.Eu falava de fé, mas eu mesma estava tendo dificuldade para orar.Eu falava sobre Deus, mas durante muito tempo não conseguia sequer buscar Sua presença como antes.Então pensei que talvez eu fosse uma farsa.E essa ideia foi me afastando cada vez mais de Deus.Foram anos.
Dez anos em que eu carreguei uma culpa que não deveria ter carregado daquela maneira. Também passei a carregar culpa por outras decisões. Inclusive pelo tratamento que abandonei depois que voltei para o Rio. Eu pensava que deveria ter insistido mais. Que deveria ter feito diferente. Que talvez, se tivesse continuado, minha história hoje fosse outra. Mas a verdade é que naquele momento eu estava cansada, enfrentando dificuldades, dependendo de outras pessoas e tentando sobreviver emocionalmente a tudo aquilo. Hoje eu consigo olhar para aquela mulher e ter mais
compaixão por ela. Ela não sabia tudo o que eu sei hoje. Ela não tinha a experiência que tenho hoje. Ela não sabia como seria viver os próximos dez anos. Ela simplesmente estava tentando continuar. E talvez essa seja uma das maiores lições que estou aprendendo: não podemos julgar a mulher que fomos usando a consciência que temos hoje. Eu também vivi situações em que minha dor foi chamada de exagero. Até houve momentos em que precisei aprender, da maneira mais dolorosa, que nem sempre aquilo que sentimos deve ser ignorado. Quando fraturei o tornozelo e caí no chão, entre o banheiro e o corredor, também ouvi que era drama. Mas a dor era real. Quando finalmente chegaram ao hospital e perceberam a gravidade da fratura, ficou evidente que eu não estava inventando aquilo. E isso me fez pensar em quantas vezes fazemos isso conosco. Sentimos alguma coisa. Alguém diz que é bobagem. Começamos a acreditar. Sentimos novamente. Alguém diz que estamos exagerando. E, depois de algum tempo, já não confiamos mais nem naquilo que nosso próprio corpo está tentando nos dizer. Hoje eu sei que preciso aprender a ouvir meu corpo. Mas também preciso aprender a ouvir meu coração. E, principalmente, preciso aprender a ouvir novamente a voz de Deus acima de todas as outras vozes. Porque houve uma época em que eu ouvi tantas vezes que era dramática, exigente, brava e exagerada que comecei a acreditar que talvez Deus também me enxergasse daquela maneira. E hoje eu sei que não. Deus não olha para mim e enxerga somente a minha paralisia.
Ele não olha para minha bengala, para minhas limitações ou para aquilo que eu não consigo mais fazer como antes. Ele olha para a minha história inteira. E talvez seja justamente por isso que hoje eu consiga escrever sobre coisas que antes eu não conseguia sequer falar. Eu não preciso fingir que estou bem para falar de Jesus. Eu não preciso esconder minhas limitações para falar de fé. Eu não preciso ter uma vida perfeita para testemunhar sobre Deus. E eu não preciso estar completamente curada para dizer que Deus continua sendo Deus. Talvez eu tenha passado anos pensando que o meu testemunho seria mais bonito se eu tivesse levantado da cadeira, recuperado todos os movimentos e voltado a fazer tudo exatamente como antes. Mas talvez eu tenha entendido errado. Meu testemunho não está somente naquilo que Deus fez por mim. Está também naquilo que Ele me sustentou para atravessar. Eu não posso contar quantas vezes Deus curou alguém. Mas posso contar quantas vezes Ele me sustentou. Posso contar quantas vezes achei que não conseguiria continuar e continuei. Posso contar que houve uma época em que eu não conseguia mais orar e, mesmo assim, Deus não desistiu de mim. Posso contar que passei anos distante e ainda assim, de alguma maneira, meu coração continuava procurando por Ele. Posso contar que hoje estou escrevendo novamente. E talvez isso seja uma resposta de Deus que eu não tinha conseguido perceber. Durante muito tempo eu achei que o AVC tinha tirado de mim o direito de falar sobre Jesus. Hoje começo a entender que ele não tirou. Talvez tenha mudado a maneira como eu falo. Antes eu falava muito sobre aquilo que eu acreditava. Hoje eu também falo sobre aquilo que eu vivi. Antes eu falava sobre fé olhando para muitas situações de fora. Hoje eu escrevo olhando para as minhas próprias cicatrizes. E talvez uma mulher que esteja lendo este texto não precise de alguém que diga apenas: “Tenha fé.” Talvez ela precise encontrar alguém que diga: “Eu sei que dói. Eu também já pensei que Deus tinha se afastado de mim. Mas continuei procurando.” É por isso que hoje quero deixar uma coisa registrada aqui: Eu não quero mais viver me culpando por ter adoecido. Posso reconhecer meus erros sem transformar meus erros em identidade. Posso reconhecer decisões que hoje faria diferente sem passar o resto da vida me castigando por elas. Posso perdoar
pessoas sem precisar dizer que tudo o que aconteceu foi certo. Posso pedir perdão por aquilo que fiz de errado sem assumir culpas que não são minhas. E posso, finalmente, parar de olhar para a minha paralisia como uma prova de que Deus não me usa. Eu não sou uma farsa. Sou uma mulher que sofreu. Uma mulher que errou. Uma mulher que foi ferida. Uma mulher que também feriu. Uma mulher que se perdeu em alguns momentos. Uma mulher que ficou dez anos tentando encontrar respostas. Mas também sou uma mulher que continua aqui. E enquanto Deus me der vida, continuarei contando aquilo que Ele me permitir contar. Não porque sou perfeita. Mas porque aprendi que testemunho não é mostrar uma vida sem problemas. Testemunho é mostrar que, mesmo atravessando problemas, Deus continua sendo Deus.
Versículo para guardar no coração: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” 2 Coríntios 12:9 Talvez eu tenha passado muito tempo tentando esconder a minha fraqueza para me sentir digna de falar de Deus. Hoje quero fazer diferente. Quero deixar que a minha história mostre que a graça de Deus também encontra a gente no lugar onde estamos.
Inclusive no lugar onde ainda estamos aprendendo a nos perdoar.
Oração: “Senhor, durante muito tempo eu carreguei culpas que talvez nem fossem minhas. Olhei para trás tantas vezes procurando onde errei, o que poderia ter feito diferente e o que deveria ter evitado. E, nessa procura, acabei me esquecendo de olhar para o quanto o Senhor me sustentou. Hoje eu entrego a Ti essa culpa. Não quero mais transformar aquilo que vivi em uma sentença contra mim mesma. Ajuda-me a reconhecer meus erros com humildade, mas sem deixar que eles definam quem eu sou. Ajuda-me a perdoar as pessoas que me feriram e também a me perdoar pelas escolhas que fiz quando ainda não sabia o que sei hoje. E, principalmente, Senhor, tira do meu coração a ideia de que minhas limitações me tornam indigna de falar de Ti. Se a minha história puder alcançar alguém, usa-a. Se as minhas palavras puderem consolar uma mulher que também se sente culpada, usa-as. Se minhas cicatrizes puderem mostrar que é possível continuar, que elas também sejam testemunho. Eu não quero mais esconder a minha fraqueza. Quero aprender a enxergar a Tua graça dentro dela. E quando eu pensar que sou uma farsa, lembra-me de que não preciso ser perfeita para ser Tua filha. Obrigada porque, mesmo quando eu me afastei, o Senhor não se afastou de mim. Em nome de Jesus, Amém.”
Se este texto falou com você…
Talvez você também esteja carregando uma culpa há muitos anos. Talvez alguém tenha repetido tantas vezes que você era exagerada, fraca, dramática ou incapaz que você acabou acreditando. Mas uma palavra repetida muitas vezes não se transforma automaticamente em verdade. Aprenda a olhar para si mesma com misericórdia. Você não é apenas aquilo que aconteceu com você.
Curta, comente e compartilhe este texto com uma mulher que talvez esteja precisando descobrir isso também.
Indicações de leitura no S R Testemunhos
- Quando paramos de nos culpar e começamos a reconhecer a nossa própria caminhada
- Quando a Alma Espera Cuidado e Encontra Silêncio
- Não Deixe Ninguém Diminuir o Valor que Deus Colocou em Você
Sandra Rochedo
Blog, S R Testemunhos — Transformando Limites
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