Lídia e Aline: duas primas, duas histórias e duas formas de transformar o mundo:
Existem pessoas que fazem parte da nossa história de uma maneira muito especial.
Algumas estiveram presentes durante muitos anos, participaram das nossas lembranças de infância, das reuniões de família, das conversas e das pequenas coisas que, na época, pareciam tão comuns. Outras estiveram mais distantes, e acabamos conhecendo suas histórias somente depois de adultas, através daquilo que passaram a fazer, dos caminhos que escolheram e das marcas que começaram a deixar na sociedade. Hoje quero falar de duas mulheres da minha família: minhas primas Lídia Rochedo Ferraz e Aline Rochedo Pachamama.
Duas mulheres diferentes, com trajetórias diferentes, mas que, cada uma à sua maneira, mostram que uma mulher pode construir uma história que ultrapassa os limites da própria família.
Lídia, uma lembrança que começou na infância: Quando penso em Lídia, uma das primeiras imagens que me vem à memória é a de uma menina diante de um piano, aprendendo a tocar. Eu era próxima dela durante minha infância e adolescência. Estávamos juntas nas reuniões familiares e, muitas vezes, eu ia à casa dela. Tenho poucas lembranças detalhadas daquele período, mas algumas permanecem muito vivas dentro de mim. Uma delas é justamente essa: Lídia aprendendo piano. Outra é a lembrança de sua inteligência. Ela sempre me pareceu uma pessoa muito inteligente, daquelas que despertam em nós a sensação de que têm capacidade para aprender, crescer e seguir caminhos próprios. Naquela época, eu não poderia imaginar onde a vida levaria de cada uma nós. Nossa família tinha uma convivência muito próxima. Minhas tias Célia, Adélia e Antônia moravam no mesmo quintal dos meus pais. Elas ficavam na parte da frente e meus pais nos fundos. Isso fazia com que os encontros familiares fossem muito mais frequentes. Era aquele tempo em que família estava perto de verdade. Depois eu me casei pela primeira vez, minha vida tomou outros rumos e acabamos perdendo o contato. Lídia foi morar em Manaus. Depois de algum tempo, seus pais também foram morar com ela. Ela construiu sua vida por lá e teve um filho, Naruan, que hoje deve estar com aproximadamente 22 anos. A vida foi passando. E é curioso como os anos podem colocar pessoas queridas em lugares tão distantes, mesmo quando elas continuam fazendo parte da nossa história.
Algumas histórias a gente só conhece muitos anos depois: Durante esse tempo em que estivemos afastadas, eu soube de algumas coisas sobre Lídia, inclusive de uma notícia, já de muitos anos atrás, relacionada a algo importante que ela realizou na área do ensino em Manaus. Não consigo mais recuperar todos os detalhes daquela notícia, e prefiro não inventar aquilo que minha memória não consegue confirmar. Mas uma coisa ficou em mim: aquela menina inteligente que eu conheci na infância cresceu, construiu sua trajetória e encontrou uma maneira de contribuir através do seu trabalho. E isso me faz pensar em quantas vezes não conseguimos acompanhar a caminhada de alguém porque a vida nos separa. Talvez aquela menina que eu via aprendendo piano já carregasse dentro dela muitas das características que mais tarde ajudariam a construir sua trajetória. Nós nem sempre conseguimos enxergar o futuro de uma pessoa quando estamos vivendo o presente ao lado dela. Às vezes só percebemos muitos anos depois.
E então a vida nos deu uma nova oportunidade: Depois de tantos anos sem contato, recentemente reencontrei Lídia pelo WhatsApp. Foi uma daquelas situações que nos fazem perceber que algumas histórias podem ficar adormecidas durante anos, mas não desaparecem completamente. Talvez não voltemos a ter a mesma convivência da infância. A vida mudou. Nós mudamos. Cada uma construiu sua própria família, enfrentou seus próprios desafios e percorreu caminhos diferentes. Mas existe algo bonito em poder olhar para trás e reconhecer: “Você fez parte da minha história.” E isso ninguém tira.
Aline: uma prima que fui conhecendo através do seu trabalho: Minha história com Aline é diferente. Não tive com ela a mesma convivência que tive com Lídia. A última vez que me lembro de ter visto Aline foi em um aniversário de família. Durante muitos anos, portanto, ela não esteve presente no meu cotidiano. Mas, aos poucos, comecei a conhecer um pouco da mulher que ela se tornou através do trabalho que desenvolveu. Passei a ver nas redes sociais notícias relacionadas à sua atuação em defesa e valorização da cultura indígena. Depois, meu primo Adriano publicou uma fotografia deles em um lançamento do último livro de Aline. E recentemente, conversando com meu irmão, acabei vendo alguns vídeos dela no YouTube, falando sobre o seu trabalho. Foi interessante perceber que, embora eu não tenha convivido muito com Aline, existia ali uma história sendo construída.
Uma história que eu não conhecia por dentro, mas que comecei a conhecer através daquilo que ela escolheu defender e compartilhar com o mundo.
Quando o trabalho de uma mulher ultrapassa sua própria história:
E é aqui que quero chegar. Porque este texto não é apenas sobre duas primas. É sobre mulheres. Sobre caminhos. Sobre escolhas. Sobre aquilo que cada mulher pode fazer quando encontra uma área na qual acredita que pode contribuir. Lídia seguiu seu caminho, ligada ao conhecimento e à educação, construindo sua vida longe do lugar onde nasceu e cresceu. Aline encontrou sua forma de atuação na valorização da cultura indígena, levando conhecimento, informação e visibilidade para uma realidade que muitas vezes ainda é desconhecida ou vista de maneira superficial. São caminhos diferentes.E justamente por serem diferentes, eles nos ensinam uma coisa importante:não existe apenas uma maneira de uma mulher ser importante para a sociedade.Nem toda mulher será professora.Nem toda mulher escreverá livros.Nem toda mulher trabalhará com cultura.Nem toda mulher será empreendedora.Nem toda mulher ocupará um cargo de destaque.Algumas transformarão vidas através da educação.Outras através da cultura.Outras através da ciência.Outras através da arte.Outras através de um pequeno negócio.Outras através da família.E algumas, como eu, talvez descubram que sua maneira de contribuir está em contar histórias, compartilhar experiências e colocar palavras onde outras mulheres precisam encontrar coragem.
O que fica de uma mulher depois que o tempo passa? Essa pergunta ficou em minha cabeça enquanto eu pensava em Lídia e Aline. O que permanece? Não são apenas os cargos. Não são apenas os títulos. Não são apenas os livros. Não são apenas as conquistas que aparecem nas redes sociais. Permanece aquilo que conseguimos acrescentar à vida de alguém. Permanece o conhecimento que compartilhamos. A cultura que ajudamos a preservar. A pessoa que ensinamos. A mulher que encorajamos. A história que contamos e que fez alguém enxergar o mundo de outra maneira. Talvez seja esse o verdadeiro significado de deixar um legado.
Para nós, mulheres: Talvez você esteja lendo este texto e pensando que sua história não tem nada de extraordinário. Talvez você não tenha um livro publicado. Talvez não tenha uma profissão reconhecida. Talvez nunca tenha aparecido em uma notícia. Talvez tenha passado grande parte da vida cuidando da casa, dos filhos, do marido, dos pais ou de outras pessoas. Mas não pense que isso significa que sua vida não tem importância. Cada mulher tem uma história. E cada história pode carregar uma contribuição. Às vezes passamos anos olhando para aquilo que não conseguimos fazer e esquecemos de enxergar aquilo que já fizemos. Lídia e Aline me fizeram pensar justamente nisso. Duas mulheres da mesma família. Duas histórias diferentes. Duas trajetórias que nem acompanhei de perto durante todos esses anos. Mas duas mulheres que, cada uma à sua maneira, construíram caminhos que merecem ser reconhecidos. E talvez essa seja uma das coisas bonitas da maturidade: começar a olhar para as pessoas que fizeram parte da nossa história não apenas pelas lembranças que temos delas, mas também pelas mulheres que elas se tornaram.
E Deus conhece cada caminho: Eu acredito que Deus conhece histórias que nós nem sempre conseguimos acompanhar. Ele conhece a menina diante do piano. Conhece a mulher que um dia vai sair de sua cidade para construir uma nova vida. Conhece aquela que vai descobrir uma causa pela qual vale a pena lutar. Conhece a mulher que ainda nem sabe o que fará com os dons que recebeu. E conhece também aquela que pensa que já passou da hora de começar alguma coisa nova. Não existe idade determinada para deixar uma marca. Não existe um único modelo de sucesso. Existe propósito. Existe aprendizado. Existe caminhada. E existe um Deus que pode usar diferentes mulheres, com diferentes histórias, em diferentes lugares.
Uma oração: “Senhor, obrigada pelas pessoas que fazem parte da nossa história e pelas histórias que ainda estamos descobrindo. Obrigada pelas mulheres que nos ensinaram, pelas que caminharam conosco e também por aquelas que, mesmo distantes, continuam fazendo parte das nossas lembranças. Ajuda-nos a reconhecer o valor da nossa própria trajetória. Que nenhuma mulher pense que sua vida perdeu o sentido porque os anos passaram. Mostra a cada uma os dons que ainda podem ser usados, as experiências que ainda podem ser compartilhadas e as pessoas que ainda podem ser alcançadas através de sua história. Abençoa Lídia, Aline e todas as mulheres que trabalham, ensinam, criam, cuidam, defendem causas e deixam sua contribuição no mundo. E que possamos compreender que o nosso valor não está apenas naquilo que conquistamos, mas também naquilo que somos capazes de acrescentar à vida de outras pessoas. Amém.” “Cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros.” — 1 Pedro 4:10
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Porque toda mulher carrega uma história. E algumas histórias só precisam de alguém disposto a olhar para elas com carinho para descobrir a beleza que sempre esteve ali.
Sandra Rochedo,
Blog, S R Testemunhos, Transformando Limites.






Que lindo, prima, e quantas saudades daquele tempo em que eu esperava pelo domingo pada poder ir à casa de nossa avó. Carrego com muito carinho lembranças de nossa infância e adolescência. O tempo passou tão rápido, e é muito bom poder estar em contato novamente com você. Bjs.