Na casa da vó Maria José, até o taco tinha que brilhar:

Na casa da vó Maria José, até o taco tinha que brilhar:

Quando eu penso na minha infância, algumas lembranças parecem voltar acompanhadas de cheiro, barulho e até movimento. Uma dessas lembranças é a casa da minha Maria José, minha avó e também minha madrinha de batismo. Ela morava em um sobrado grande, no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro. E quando eu digo grande, não estou exagerando. A casa tinha apenas dois quartos, mas parecia que cabia uma família inteira ali dentro. E, pensando bem, cabia mesmo! 😂 No quarto menor, que era o quarto de solteiro, havia uma cama de casal. Nela dormiam meus pais, minha irmã e meu irmão. O quarto da minha avó era enorme. Dava até para dividir em dois. Minha dormia em uma cama de casal. Haviam duas camas de solteiro: em uma dormiam minha tia e minha prima, que tinha mais ou menos a idade do meu irmão caçula. Na outra, dormiam dois primos meus. E ainda haviam duas salas. Na sala de baixo, dormiam minha tia e meu tio em um sofá-cama, além do meu primo mais novo. Na sala de cima havia uma beliche. Eu dormia embaixo e minhas duas primas dormiam na parte de cima. Hoje, quando conto isso, parece até uma casa italiana de filme! 😂 Era gente para todo lado, criança correndo, adulto conversando, comida sendo preparada e aquela sensação de que sempre tinha alguém por perto. Mas tinha uma coisa que ninguém podia esquecer naquela casa: a limpeza! Minha vó Maria José era extremamente organizada. Gostava de tudo limpo e brilhando. E aí estava o nosso grande desafio: a casa inteira tinha piso de taco. Quem já viu um taco bem encerado sabe do que estou falando. Aquilo tinha que brilhar! As tarefas eram divididas entre meninas e meninos. As meninas ficavam responsáveis pelos quartos, corredor, salas, cozinha, banheiro e área de serviço. Os meninos ficavam com a varanda e a escada. E não era simplesmente varrer a escada, não. Tinha que varrer e depois lavar. E, para minha , ainda não estava bom. Eles também tinham que limpar a marquise. Porque, afinal, se era para limpar, era para limpar direito! 😂 Cada um tinha sua tarefa e não adiantava fazer corpo mole. Quem ficava com a cozinha também ficava responsável pelo café da manhã de todo mundo. Isso significava acordar cedo, ir à padaria comprar pão e leite e depois preparar o café para aquele verdadeiro batalhão. Hoje eu fico pensando: quantos pães será que eram necessários para alimentar aquela turma toda? 😂 Depois vinha a parte pesada da limpeza. Era encerar o chão, passar a enceradeira até o taco ficar brilhando, tirar o pó da estante cheia de bibelôs e passar óleo de peroba para deixar tudo bonito. E depois de tanto trabalho, ainda colocávamos as passadeiras em lugares estratégicos para ninguém estragar o chão. Porque os meninos, claro, não eram exatamente conhecidos pelo cuidado com o piso que eles não tinham limpado. 😂 A sala de cima era mais tranquila, porque não tinha tanta coisa para arrumar. E quem ficava com a cozinha também cuidava da área de serviço. Afinal, depois de lavar a cozinha, era só aproveitar e jogar a água para a área e lavar tudo de uma vez.Minha vó sabia organizar as coisas.E, além de organizar a casa, ela também estava organizando a nossa vida sem que nós percebêssemos.Depois de toda aquela limpeza, ela ainda me chamava e chamava minha prima mais velha para a cozinha.Era hora da aula.Minha ficava ali, na nossa frente, ensinando e observando enquanto nós prestávamos atenção.Porque éramos nós que iríamos preparar o almoço.E assim fui aprendendo.Aprendi a cozinhar.Aprendi a limpar.Aprendi a organizar.Aprendi que cada pessoa precisa fazer a sua parte quando muita gente divide o mesmo espaço.Mas acho que aprendi muito mais do que isso.Aprendi convivência.Aprendi responsabilidade.Aprendi queuma casa não fica organizada sozinha e que uma família também não funciona sozinha.Todo mundo precisa colaborar.

Domingo era dia de família: mE se durante a semana aquela casaera movimentada, domingo era outra história. Todo domingo era dia de reunião de família. Minha tia Lena vinha com o marido e os dois filhos. E o almoço era preparado para todos os moradores e para quem chegasse. As crianças iam para a missa e, quando voltávamos para casa, o almoço estava pronto e a mesa montada na área de serviço. Era uma verdadeira reunião familiar. Aquela coisa que hoje, quando lembramos, parece até cena de filme de família italiana. Todo mundo junto. Comida na mesa. Criança conversando. Adulto conversando. Gente chegando. Gente saindo. E aquela bagunça gostosa que só uma casa cheia de família consegue fazer. E não era só aos domingos. No Natal também era assim. A família se reunia, a casa ficava cheia e aquela convivência fazia parte da nossa vida. Na época, nós provavelmente não pensávamos que aquilo tudo era especial. Para nós, era simplesmente a nossa rotina. Hoje, olhando para trás, percebo que minha estava nos ensinando muito mais do que a manter uma casa limpa. Ela estava nos preparando para a vida. Eu não sabia que enquanto passava enceradeira no taco, tirava pó dos bibelôs ou aprendia a fazer o almoço, estava acumulando conhecimentos que levaria comigo por muitos anos. Minha vó Maria José talvez nem imaginasse que aquelas tarefas ficariam guardadas na minha memória. Mas ficaram. E hoje, quando lembro daquela casa em Bangu, lembro do taco brilhando, do cheiro do óleo de peroba, da correria das crianças, das tarefas divididas, do café para o batalhão e dos domingos com a família reunida. E penso que algumas das melhores lembranças da nossa vida não acontecem em lugares luxuosos ou em grandes viagens. Às vezes elas acontecem em um sobrado cheio de gente, com dois quartos para uma multidão, uma beliche disputada, uma mesa cheia de comida e uma vó que queria tudo limpo e brilhando. Até o taco! 😂 Minha vó Maria José ensinou muitas coisas. E uma delas ficou comigo até hoje: quando a gente aprende alguma coisa com amor, mesmo que na época pareça apenas obrigação, um dia percebe que aquilo também fazia parte da nossa formação. Talvez seja por isso que algumas lembranças da infância nunca envelhecem. Elas simplesmente ficam esperando o momento certo para voltar. E hoje voltou a lembrança da casa da minha . Aquela casa cheia. Aquela família grande. Aquele chão brilhando. E aquela menina que ainda não sabia que, muitos anos depois, estaria aqui contando tudo isso. ❤️

Uma reflexão: A vida muda, as famílias crescem, as casas mudam e algumas pessoas deixam saudade. Mas aquilo que aprendemos dentro de casa pode permanecer conosco por toda a vida. Talvez a gente não perceba enquanto está vivendo. Só mais tarde entende. E talvez seja justamente isso que torna algumas lembranças tão preciosas. Elas não são apenas lembranças. São pedaços de quem nós nos tornamos.

Oração: “Senhor, obrigada pelas lembranças que o tempo não conseguiu apagar. Obrigada pelas pessoas que fizeram parte da nossa história e por tudo aquilo que aprendemos com elas, mesmo sem perceber. Que possamos valorizar nossas memórias, nossa família e os ensinamentos que recebemos ao longo da vida. E que também saibamos deixar boas lembranças na vida daqueles que caminham conosco. Amém.”❤️ E você, tem alguma lembrança da casa dos seus avós que ficou guardada na memória? Conte nos comentários. Talvez a sua lembrança também mereça sair do baú e virar uma história. Se gostou, curta, comente e compartilhe. Pode ser que alguém leia e volte, por alguns minutos, para uma lembrança querida da própria infância.

Sandra Rochedo,Blog S R Testemunhos — Transformando Limites

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