Uma reflexão sobre escolhas, limites e recomeços
Tenho andado muito pensativa esses dias.
Tenho olhado para a minha vida com mais calma, ponderado algumas coisas e percebido que existem momentos em que precisamos parar, respirar e perguntar a nós mesmos:
Isso ainda está me fazendo bem?
Nem sempre continuar significa ser forte.
Às vezes, a verdadeira força está justamente em reconhecer que alguma coisa já não está funcionando como gostaríamos e ter coragem de fazer uma escolha diferente.
Eu havia parado de ir à psicoterapia e também deixei a terapia ocupacional, porque sinceramente não estava percebendo benefícios que me motivassem a continuar naquele momento.
A fisioterapia acabou indo no embalo, mas estou pensando em ver se consigo retornar, porque talvez seja uma área que eu ainda possa aproveitar e que possa contribuir para o meu processo.
Também tomei outra decisão que, confesso, não foi tão simples: parei as aulas de pintura.
E essa decisão mexeu comigo.
Eu gostava de pintar. Ainda gosto.
Mas comecei a perceber que estava me sentindo deslocada. As outras meninas já estavam há mais tempo no curso, tinham muita habilidade, levavam suas telas, seus materiais e produziam trabalhos lindos.
Eu chegava muitas vezes sem ter tudo aquilo.
Precisava pegar o material que faltava com uma das alunas que levava produtos para vender e depois pagar. E aí vinha uma pergunta que ficava dentro de mim:
“E se eu não tiver como pagar?”
Porque nem sempre eu tenho condições de comprar uma tela, uma tinta ou qualquer outro material naquele momento. Meu irmão pagava o curso para mim. E eu sei que ele fazia isso de coração, porque queria me ver mais animada, ocupada, fazendo alguma coisa que me trouxesse alegria. E eu sou muito grata por isso.
também comecei a pensar: Até quando vou depender de alguém para fazer uma coisa que deveria conseguir manter por mim mesma? Meu irmão não tem obrigação nenhuma comigo. Ele fez por amor. E justamente por reconhecer esse amor, eu não queria transformar a generosidade dele em uma obrigação.Então conversei com ele e disse apenas que achava melhor parar. Talvez ele nem tenha entendido completamente os meus motivos. Mas eu sabia. Eu estava escolhendo preservar a minha paz. Não queria chegar ao curso e ficar pensando no dinheiro da tela, no material que precisava comprar, em quem iria pagar ou em como pedir esse dinheiro.Também não queria chegar em casa carregando mais uma preocupação.Porque existem momentos em que aquilo que deveria ser prazer começa a se transformar em peso. E quando isso acontece, talvez seja hora de parar.Não significa que eu deixei de gostar de pintar.Muito pelo contrário.Eu ainda quero pintar.Tenho meu cavalete em casa, algumas tintas e materiais guardados.Quando puder comprar algumas telas, vou pintar em casa.Talvez sozinha.Talvez no meu próprio ritmo. Sem comparação. Sem olhar para o lado e pensar que estou atrasada. Sem precisar provar nada para ninguém. Porque talvez essa seja uma das grandes lições que estou aprendendo: Eu não preciso fazer tudo do jeito que os outros fazem para continuar fazendo aquilo que amo. Também não preciso acompanhar o ritmo de ninguém. Cada pessoa tem uma história, uma realidade, uma condição financeira, um tempo e um caminho.E comparar a minha caminhada com a caminhada de outra pessoa só vai me fazer enxergar aquilo que ainda não tenho, esquecendo tudo aquilo que já conquistei.
Eu vou sentir falta das aulas. Claro que vou. Vou sentir falta das conversas, do ambiente e daqueles momentos. Mas sentir falta não significa que tomei a decisão errada. Algumas escolhas doem mesmo quando são necessárias.E estou aprendendo a não chamar toda renúncia de fracasso.Às vezes, renunciar é maturidade.Às vezes, parar é sabedoria.Às vezes, diminuir o ritmo é necessário para conseguir continuar caminhando.E principalmente, estou aprendendo que não preciso me colocar em situações que aumentem minhas preocupações apenas para mostrar que estou tentando.
Eu sei que estou tentando. Deus sabe.
E isso é suficiente. Talvez amanhã eu volte para uma aula. Talvez eu descubra outra forma de pintar. Talvez meu cavalete fique durante algum tempo parado em um canto da casa. Tudo bem. A vida não precisa acontecer toda de uma vez. Existem coisas que podemos deixar para depois sem abandoná-las. E talvez seja exatamente isso que estou fazendo agora. Não estou desistindo da pintura. Estou apenas levando a pintura para um lugar onde ela possa voltar a ser aquilo que deveria ser: um prazer.
Reflexão: Nem toda porta que fechamos representa uma derrota. Algumas portas fechamos porque precisamos cuidar da nossa paz, da nossa realidade e da nossa dignidade. Não devemos ter vergonha de reconhecer quando alguma coisa está além das nossas possibilidades naquele momento. A vida é feita de fases. Hoje talvez eu não possa comprar uma tela. Amanhã talvez possa. Hoje talvez eu precise parar. Amanhã talvez consiga recomeçar. E tudo bem. O importante é não desistirmos de nós mesmos.





