Quando o Ano-Novo começava antes da meia-noite:
Quando penso nos Natais da minha infância e juventude, algumas cenas aparecem na minha memória quase como um filme. O Natal sempre foi na casa da minha avó. Era aquela coisa que hoje parece até de outro tempo: mesa farta, árvore de Natal, a família reunida, amigo oculto e muita conversa. E, claro, tinha uma coisa que não podia faltar na trilha sonora daquela casa: Roberto Carlos. Minha avó, minha mãe e minhas tias adoravam. Então, se era Natal, Roberto Carlos tinha presença garantida. 😂 Mas, se o Natal tinha endereço certo, o Ano-Novo também tinha. Era na casa da minha tia Marilena e do meu tio Jair. E aí a história já mudava completamente de cenário. O dia 31 era uma bagunça só! Nós enfeitávamos a área da casa com serpentinas, comprávamos confetes e enchíamos tudo de bexigas brancas. A casa ficava toda preparada para a chegada do novo ano. Mas não pense que ficávamos esperando a meia-noite em silêncio, tomando cuidado para não bagunçar nada. Muito pelo contrário. O som ficava bem alto e a trilha sonora era outra: samba-enredo do Carnaval do ano seguinte. Era música, conversa, risada, gente entrando e saindo, criança correndo e aquela alegria que só uma família grande reunida consegue fazer. E quando chegava o dia 1º de janeiro, a festa continuava. Naquela época existia um evento que já fazia parte da nossa tradição familiar: o famoso jogo anual de solteiros contra casados. Meu tio Jair participava da organização e tinha uma parte do campo de futebol que fazia parte daquela festa toda. E o jogo era só uma parte da diversão. Entre uma partida e outra, aconteciam brincadeiras, danças e apresentações. Foi justamente aí que meu tio teve uma grande ideia. Como eu fazia aulas de dança e jazz, ele me perguntou se eu poderia ensinar algumas meninas para fazer uma apresentação no dia do jogo. Eu, que gostava de dança, aceitei. E assim nasceu um pequeno grupo de dez meninas. Começamos a ensaiar no quintal da casa da minha mãe. Imaginem a cena: dez meninas ensaiando, repetindo os passos, tentando acertar a coreografia e eu ali, toda professora de dança. 😂 E o mais engraçado é que aquilo ganhou até nome. Como o sobrenome do meu tio era Bahia, o nosso grupo foi batizado de Ballet do Bahia. E lá fomos nós! No dia 1º de janeiro, além de torcer pelos pais, tios e pelos sobrinhos solteiros, ainda tinha a apresentação do nosso ballet. Era uma festa dentro da festa. E, enquanto uma parte da família estava no campo, outra ficava encarregada de uma missão igualmente importante: alimentar aquela tropa toda. Porque depois de correr, jogar, brincar e dançar, ninguém queria saber de dieta. Tinha angu à baiana, mocotó e, às vezes, churrasco. E assim a festa continuava. O futebol acabava, mas a reunião não. As conversas continuavam, as brincadeiras também, e a casa da minha tia Marilena e do meu tio Jair permanecia cheia de gente. Hoje, quando lembro de tudo isso, percebo que talvez a melhor parte daquela época não estivesse exatamente no Natal, no Ano-Novo, no futebol ou nas apresentações. Estava na presença das pessoas. Estava na minha avó reunindo a família no Natal. Na minha mãe, nas minhas tias e naquele Roberto Carlos que parecia fazer parte da família. 😂 Estava na minha tia Marilena e no meu tio Jair abrindo a casa para receber aquela multidão no Ano-Novo. Estava nas crianças, nos primos, nos tios, nos sobrinhos, nos solteiros contra os casados, no samba-enredo tocando alto, nas serpentinas, nos confetes e nas bexigas brancas. E estava também naquelas coisas que pareciam pequenas na época, mas que hoje se tornaram grandes lembranças. Quem diria que aqueles dez meninas ensaiando no quintal da minha mãe dariam origem ao Ballet do Bahia? Quem diria que um jogo
de futebol no primeiro dia do ano se transformaria em uma lembrança que eu carregaria por tantos anos?É assim que a vida vai construindo nossa história.A gente vive determinados momentos sem imaginar que, muitos anos depois, vai sentir saudade justamente deles.Meu tio Jair já não está aqui para participar daquela bagunça toda.Mas quando lembro dele, não quero pensar apenas na ausência.Quero lembrar da alegria, das reuniões, do futebol, da comida, das brincadeiras e daquele jeito de reunir a família e fazer do primeiro dia do ano uma verdadeira festa.Porque algumas pessoas partem, mas deixam atrás delas uma coleção de histórias.E algumas dessas histórias continuam vivas cada vez que alguém se senta para contá-las.Hoje fui eu que abri mais uma gaveta do meu baú de lembranças.E, olha… ainda bem que eu não joguei fora essas memórias.Elas continuam sendo parte de quem eu sou.
Uma pequena reflexão: Talvez a gente não consiga guardar para sempre as pessoas, as casas, os encontros ou aqueles dias de festa. Mas podemos guardar aquilo que eles deixaram dentro de nós. Memórias também são uma forma de agradecer pela história que vivemos.
Oração: “Senhor, obrigada pelas pessoas que fizeram parte da minha história. Obrigada pelos momentos de alegria, pelas famílias reunidas, pelas brincadeiras, pelas festas e por todas as lembranças que hoje moram dentro de mim. Ajuda-me a valorizar as pessoas enquanto estão ao meu lado e a guardar com carinho aquilo que o tempo não pode apagar. E que eu nunca me esqueça de agradecer pela oportunidade de ter vivido histórias que hoje posso contar. Amém.”
Sandra Rochedo, Blog S R Testemunhos — Transformando Limites
Se essa lembrança trouxe alguma memória da sua própria família, curta, comente e compartilhe. Talvez alguém esteja precisando abrir também uma gaveta do seu próprio baú de lembranças.
📖 Indicações de leitura:
- O legado de oração das avós — sobre aquilo que as avós deixam nas gerações seguintes.
- Um Natal com saudade no colo — uma lembrança de Natal marcada pela família, amor e saudade.
- Seis anos de saudade… e tantas lembranças para sorrir — uma história sobre como as pessoas continuam vivas nas histórias e nas lembranças que deixaram. ❤️





