Depois que chegamos de Salvador, eu imaginava que as coisas começariam a entrar novamente nos eixos. A vida continuava, a rotina também, e nós seguíamos caminhando juntos, carregando tudo aquilo que já havíamos vivido. Mas em 2019, Deus nos mostrou mais uma vez que existem momentos em que precisamos estar atentos aos pequenos sinais, porque aquilo que parece não ser nada pode esconder algo muito sério .Naquele dia, Giovani saiu de casa para resolver um assunto no Detran. Depois, passou no supermercado para comprar algumas coisas que estavam faltando em casa. Ele contou que, enquanto estava no caixa pagando as compras, começou a se sentir mal. Mesmo assim, pagou tudo, foi até o estacionamento, entrou no carro e dirigiu para casa. Quando chegou, entrou diretamente pela cozinha. Pegou um copo de água e foi para a sala, onde eu estava sentada esperando por ele. Foi então que percebi que havia derramado um pouco de água na blusa. Naquele momento, eu ainda pensei em brincar com ele. Eu ia falar alguma coisa, fazer aquela brincadeira de esposa, dizendo que ele estava babando ou alguma coisa parecida. Mas quando olhei para o rosto dele com mais atenção, alguma coisa me chamou a atenção. O rosto dele estava diferente.Parecia que um lado estava “derretendo”. Foi quando eu falei:
— Amor, eu vou chamar sua filha para te levar ao UPA. Você está com a boca torta. Pode ser um AVC. Ele, porém, não queria ir. Disse que estava bem. Que não estava sentindo nada demais. Foi até o banheiro, olhou-se no espelho e voltou dizendo que não estava vendo nada. Ele insistia: Eu estou bem. Você está vendo coisa onde não tem. Mas eu não estava vendo coisa. Eu estava vendo um sinal. E naquele momento eu preferi errar pelo excesso de cuidado do que correr o risco de ignorar aquilo. Liguei para a filha mais velha dele e pedi que fosse rapidamente para nossa casa, porque eu acreditava que o pai dela estava tendo outro AVC. Não demorou muito e ela chegou com o marido. Assim que olharam para Giovani, perceberam também que a boca dele estava torta. Eles entenderam que era preciso levá-lo rapidamente para atendimento. Mas Giovani continuava teimando. Disse que iria tomar banho antes de sair. E tomou. Depois disso, fomos para o atendimento médico. No início, os médicos chegaram a pensar que poderia ser apenas uma paralisia facial. Mas fizeram uma tomografia para investigar melhor. E então veio a confirmação: Era outro AVC. Naquele momento, tudo aconteceu rapidamente. Ele foi encaminhado para o hospital, recebeu o tratamento necessário e permaneceu internado por alguns dias. Mais uma vez, nós estávamos diante de uma situação que poderia ter terminado de uma maneira muito diferente. Depois que recebeu alta, ainda havia uma consequência daquele AVC que precisava ser tratada. A fala havia sido afetada. Giovani precisou fazer fonoaudiologia durante alguns meses. E, graças a Deus, com tratamento, dedicação e perseverança, ele conseguiu recuperar a fala e voltou ao normal. E quem nos auxiliou nesse tratamento foi uma irmã da igreja que é fonoaudióloga, ela ia duas vezes na semana fazer o tratamento com ele.. mais uma vez Deus colocou uma pessoa para nos ajudar. O primeiro AVC havia deixado consequências principalmente na memória. O segundo atingiu a fala. Duas experiências diferentes. Duas batalhas. E duas vezes em que
precisamos aprender a lidar com uma nova realidade. Hoje, olhando para trás, eu penso naquele momento em que ele entrou pela cozinha com o copo de água. Se eu tivesse simplesmente olhado para ele e pensado: “Ele está cansado”, talvez a história pudesse ter sido outra. Se eu tivesse acreditado quando ele disse que estava bem e não insistido para que procurássemos atendimento, talvez tivéssemos perdido um tempo precioso. Mas alguma coisa dentro de mim dizia que havia algo errado. E eu acredito que Deus nos permite estar atentos justamente em momentos como esse. Não estou dizendo que devemos viver com medo. Mas precisamos aprender a observar. Precisamos conhecer as pessoas que amamos. Precisamos perceber quando alguma coisa muda. Um sorriso diferente. Uma fala diferente. Um movimento estranho. Uma dificuldade repentina. Uma alteração que não estava ali antes. Às vezes, a própria pessoa não percebe o que está acontecendo. Foi exatamente o que aconteceu com Giovani. Ele olhou no espelho e não enxergou o que eu estava enxergando. Por isso, naquele dia, eu precisei ser os olhos dele. E a família precisou acreditar no que estava acontecendo e agir rapidamente. Hoje eu consigo olhar para tudo isso e dizer: Deus esteve conosco em cada detalhe.
Não foi ausência de dificuldades. Não foi uma vida sem sustos. Não foi uma caminhada sem lágrimas. Foi Deus nos sustentando em meio a tudo isso. E talvez essa seja uma das maiores lições que ficou para mim depois de tantos acontecimentos:
Nem sempre teremos controle sobre aquilo que acontece conosco. Mas podemos escolher como vamos reagir diante daquilo. Podemos desistir. Podemos nos desesperar. Ou podemos respirar fundo, buscar ajuda, enfrentar o que for necessário e continuar. Foi isso que fizemos. E continuamos fazendo.
ENCERRAMENTO DA SÉRIE — UMA HISTÓRIA QUE AINDA ESTÁ SENDO ESCRITA: Quando comecei a contar a história de Giovani, talvez eu mesma não tivesse percebido quantas coisas estavam guardadas dentro dela.
Foi uma história que começou de maneira simples. Um encontro no trabalho.
Uma sala. Um homem que chegou para consertar computadores. Uma mulher que estava trabalhando como secretária. E, sem que nenhum dos dois soubesse, Deus estava permitindo que duas histórias se encontrassem.Depois vieram os anos.Vieram as mudanças.Vieram Salvador, Curitiba, família, dificuldades, alegrias, perdas, recomeços, desafios e também milagres.Vieram dois AVCs.Vieram tratamentos.Vieram momentos de medo.Vieram dias em que parecia que seria difícil continuar. Mas continuamos. E é justamente por isso que eu não quero terminar essa série falando apenas sobre os AVCs, as dificuldades ou os momentos difíceis.Quero terminar falando sobre superação, companheirismo, cuidado e propósito.Porque quando duas pessoas decidem caminhar juntas, elas não prometem que nunca haverá dias difíceis.Elas prometem, ou deveriam prometer, que não vão abandonar uma à outra justamente quando os dias difíceis chegarem.Giovani teve momentos em que precisou de mim.E eu também tive momentos em que precisei dele.Talvez essa seja a verdadeira essência de uma vida compartilhada.Não é apenas estar junto quando tudo está bem.É permanecer quando a vida muda os planos.É aprender a cuidar.É aprender a ouvir.É aprender a ter paciência.É aprender que algumas batalhas serão vencidas rapidamente e outras exigirão meses ou até anos.E também é entender que nem toda vitória será grandiosa aos olhos das pessoas.Às vezes, uma vitória é conseguir voltar a falar.Às vezes, é recuperar uma memória.Às vezes, é conseguir levantar da cama.Às vezes, é simplesmente olhar para quem está ao nosso lado e agradecer porque, apesar de tudo, ainda estamos aqui.A nossa história não é perfeita.E talvez justamente por isso ela seja tão verdadeira.Não somos um casal de filme.Somos duas pessoas que passaram por muitas coisas e continuam aprendendo.E, olhando para tudo o que vivemos, eu posso dizer que existem histórias que Deus não permite que sejam contadas apenas para nós mesmos.Talvez algumas experiências sejam transformadas em testemunho justamente para que outra pessoa leia e perceba
“Eu também posso continuar. “Se você está passando por uma fase difícil no seu casamento, na sua família ou na sua própria vida, não pense que o capítulo difícil é necessariamente o capítulo final.Às vezes, Deus ainda está escrevendo.E enquanto houver vida, ainda existem páginas que podem ser preenchidas.Eu termino essa série com o coração agradecido.Agradecido por cada livramento.Por cada recuperação.Por cada pessoa que esteve ao nosso lado.Pela família.Pelas oportunidades de recomeçar.E principalmente porque, olhando para trás, consigo perceber que muitas vezes aquilo que parecia o fim era apenas mais uma parte da história.A história de Giovani continua.A nossa história continua.E enquanto Deus permitir, continuaremos escrevendo novos capítulos.Porque testemunho não é contar que nunca passamos por problemas.Testemunho é poder olhar para tudo aquilo que passamos e dizer: até aqui nos ajudou o Senhor.
UMA PALAVRA FINAL; Se existe algo que essa história me ensinou, é que Deus pode transformar experiências difíceis em sementes de esperança. Talvez você esteja vivendo hoje um capítulo que não entende. Talvez esteja enfrentando uma doença, uma perda, uma dificuldade financeira, uma crise familiar ou simplesmente uma fase em que não consegue enxergar uma saída. Não tenha pressa para concluir a história. Você ainda não conhece todas as páginas. Continue. Ore. Busque ajuda quando precisar. Cuide de quem você ama. Valorize as pessoas que caminham ao seu lado. E nunca se esqueça: Enquanto houver vida, ainda existe história para contar.
Versículo: “Até aqui nos ajudou o Senhor.”
1 Samuel 7:12
Oração: “Senhor, obrigada por tudo o que vivemos e por tudo aquilo que ainda viveremos. Obrigada pelos livramentos que percebemos e também por aqueles que nunca chegamos a conhecer. Obrigada porque, mesmo nos momentos difíceis, o Senhor permaneceu conosco. Abençoa cada pessoa que chegou até o final desta história. Que aquele que estiver enfrentando uma luta encontre força para continuar. Que aquele que estiver cuidando de alguém tenha paciência e sabedoria. Que aquele que estiver esperando por uma recuperação não perca a esperança. E que possamos aprender a enxergar os pequenos sinais, valorizar a vida e cuidar das pessoas que o Senhor colocou ao nosso lado. Que a nossa história continue sendo testemunho da Tua graça. Em nome de Jesus. Amém.”
Com carinho,
Sandra Rochedo,
Blog, S R Testemunhos, Transformando Limites.
Uma história de amor, fé, superação e recomeços.





