Quando a Casa Era Aberta e o Coração Também:

Há algum tempo tenho refletido sobre as pessoas que entraram e saíram da minha vida.

Com o passar dos anos, percebo o quanto as experiências, sejam elas boas ou dolorosas, contribuem para o nosso amadurecimento.

Houve uma época em que minha família e eu estávamos muito envolvidos na obra de Deus.

Nossa casa era simples, mas estava sempre de portas abertas.

Não tínhamos cargos importantes, não éramos líderes, nem ocupávamos posições de destaque.

Éramos apenas uma família disposta a servir.

Muitas vezes recebíamos pessoas que passavam pela cidade para cumprir compromissos ministeriais.

Meu esposo buscava visitantes no aeroporto ou na rodoviária, enquanto eu e minhas filhas preparávamos tudo para recebê-los da melhor forma possível.

Arrumávamos o quarto de hóspedes, organizávamos a casa, preparávamos o café da manhã quando necessário e começávamos a preparar o almoço com carinho e dedicação.

Fazíamos questão de que cada pessoa se sentisse acolhida.

Quando chegavam, sentávamos na sala para conversar, nos apresentar e criar um ambiente familiar.

Depois vinham os passeios.

Levávamos nossos visitantes para conhecer pontos turísticos do Rio de Janeiro, usando nosso próprio carro, nosso combustível e nossos recursos.

Nunca esperamos restituição ou reconhecimento.

Fazíamos porque acreditávamos que servir ao próximo era uma forma de servir a Deus.

Recebemos pastores, músicos, evangelistas, missionários e até famílias inteiras vindas de outros países.

Todos eram tratados como parte da nossa família.

Queríamos que se sentissem em casa.

Naquele tempo, eu acreditava que os laços construídos através do serviço, do amor e da comunhão permaneceriam para sempre.

Mas a vida ensina lições que nem sempre gostaríamos de aprender.

Com o passar dos anos, surgiram situações em que passamos a discordar de alguns procedimentos adotados pela denominação da qual fazíamos parte.

Não houve rebeldia, nem desejo de causar divisão.

Apenas entendíamos que algumas coisas precisavam ser questionadas.

Foi então que descobri algo doloroso:

Enquanto servíamos sem questionar, éramos bem-vindos.

Quando passamos a pensar diferente, deixamos de ser necessários.

Pouco a pouco fomos sendo afastados.

Pessoas que antes frequentavam nossa casa passaram a agir como se não nos conhecessem.

Algumas simplesmente desapareceram.

Outras escolheram o silêncio.

Aqueles que um dia se sentaram à nossa mesa pareciam ter apagado nossa história de suas memórias.

A exclusão não atingiu apenas a mim.

Atingiu minha família.

Meus filhos cresceram observando tudo o que aconteceu.

Viram seus pais servindo com sinceridade e, depois, sendo deixados para trás.

Hoje não querem mais saber de igreja.

Não confiam em lideranças e carregam suas próprias feridas.

Meu esposo também foi profundamente afetado.

Depois de tantos anos dedicando tempo, recursos e amor ao próximo, perdeu a vontade de participar de qualquer comunidade religiosa.

Confesso que durante muito tempo me perguntei se tudo aquilo havia valido a pena.

Mas hoje, olhando para trás, compreendo algo importante.

As atitudes das pessoas não anulam aquilo que fizemos por amor.

O bem continua sendo bem, mesmo quando não é reconhecido.

A hospitalidade continua sendo hospitalidade, mesmo quando não recebe agradecimentos.

O amor continua sendo amor, mesmo quando encontra ingratidão.

Talvez algumas pessoas tenham esquecido.

Talvez outras prefiram fingir que nada aconteceu.

Mas Deus conhece cada refeição preparada, cada quilômetro percorrido, cada oração feita, cada porta aberta e cada gesto de carinho oferecido sem esperar nada em troca.

O amadurecimento nos ensina que nem todos permanecerão em nossa caminhada.

Algumas pessoas chegam para receber algo e depois seguem seu caminho.

Outras permanecem apenas enquanto lhes somos úteis.

Isso pode machucar, mas também nos ajuda a compreender que nossa identidade não deve estar baseada na aprovação humana.

Hoje continuo acreditando que vale a pena fazer o bem.

Não porque as pessoas sempre reconhecerão.

Mas porque aquilo que é feito com amor nunca é perdido diante de Deus.

E, mesmo que algumas portas tenham se fechado, continuo acreditando que o Senhor vê cada lágrima, conhece cada ferida e honra aqueles que serviram de coração sincero.

Nem todos lembrarão da nossa história.

Mas Deus jamais esquecerá.

“Porque Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra e do trabalho da caridade que para com o seu nome mostrastes.” (Hebreus 6:10)

Oração:

Senhor, ajuda-nos a lidar com as decepções sem permitir que elas endureçam nosso coração. Cura as feridas causadas pela rejeição e pela ingratidão. Ensina-nos a continuar fazendo o bem, não para sermos reconhecidos pelos homens, mas para honrarmos a Ti. Restaura a fé daqueles que foram feridos e fortalece aqueles que ainda carregam marcas do passado. Que possamos encontrar em Ti a segurança que o ser humano muitas vezes não consegue oferecer. Em nome de Jesus, amém.”

Sandra Rochedo,

Blog, S R Testemunhos, Transformando Limites.

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