Quando você começa a se anular para preservar a paz:

Às vezes, a gente não percebe quando começa a se apagar.

No começo, é apenas uma coisa ou outra. Você deixa de pedir porque já sabe que provavelmente vai ouvir um “não”. Deixa de falar porque sabe que a resposta pode vir acompanhada de má vontade, reclamação ou alguma palavra que vai machucar. Então você pensa: “É melhor não falar nada.” E assim começa.Você passa a pedir menos. Depois, passa a conversar menos. Começa a evitar determinados assuntos.
Deixa de demonstrar algumas necessidades. E, aos poucos, começa a ficar mais tempo quieta, muitas vezes dentro do quarto, sozinha com os próprios pensamentos.Não necessariamente porque quer ficar sozinha.Mas porque ficar sozinha parece ser menos doloroso do que sentir que sua presença está incomodando alguém.É muito triste quando uma pessoa chega a esse ponto.Quando ela começa a calcular cada pedido antes de fazê-lo. Quando pensa duas, três, dez vezes antes de perguntar alguma coisa, porqueconhece a resposta ou já sabe que vai perceber má vontade do outro lado.E então ela prefere não pedir.Prefere não falar.Prefere não incomodar.Prefere ficar quieta.Até que, sem perceber, começa a perder um pouco de si mesma.A pessoa que antes conversava, opinava, brincava, perguntava, sonhava e participava vai ficando cada vez mais silenciosa. Não porque deixou de ter vontade, mas porque foi aprendendo que demonstrar suas necessidades pode trazer conflitos.E, para preservar a paz, ela começa a abrir mão da própria identidade.Mas será que isso é realmente paz?Porque paz não deveria ser construída em cima do silêncio de uma pessoa.Não deveria ser necessário alguém se esconder dentro de um quarto para que a casa fique tranquila.Não deveria ser necessário deixar de pedir ajuda para não ouvir reclamações.Não deveria ser necessário engolir sentimentos para não provocar uma discussão.E muito menos deveria ser necessário diminuir a própria existência para que outra pessoa se sinta confortável.Existe uma diferença enorme entre evitar conflitos e viver anulando a si mesma.Evitar uma discussão às vezes é sabedoria. Mas viver constantemente com medo da reação do outro, deixando de falar, de pedir, de participar  e de expressar aquilo que sente, pode fazer com que você desaparecendo aos poucos dentro da própria vida.E talvez ninguém perceba.As pessoas podem olhar e dizer: “Ela está quietinha.”“Ela gosta de ficar no quarto.”“Ela não pede mais nada.”“Ela está tranquila.”Mas talvez ela não esteja tranquila.Talvez esteja cansada.Cansada de sentir que incomoda.Cansada de ouvir “não”. Cansada de perceber vontade.Cansada de precisar medir cada palavra.Cansada de sentir que suas necessidades são um problema.E quando alguém chega ao ponto de preferir o silêncio à companhia, talvez seja hora de olhar para essa convivência com mais cuidado.Porque ninguém deveria precisar se diminuir para ser tolerado.Ninguém deveria precisar deixar de ser quem é para manter uma aparente harmonia.E ninguém deveria confundir ausência de conflitos com existência de paz.A verdadeira paz não exige que uma pessoa desapareça.A verdadeira paz permite diálogo, respeito, consideração e espaço para que cada um continue sendo quem é.Por isso, se em algum momento você perceber que está deixando de pedir, de falar, de participar e até de demonstrar o que sente simplesmente porque sabe qual será a reação do outro, pare um pouco e olhe para dentro de si.Talvez você não esteja apenas evitando problemas.Talvez esteja se anulando para sobreviver emocionalmente a uma convivência que deveria ser acolhedora.E você precisa lembrar de uma coisa:Você também importa.Suas necessidades importam.Sua voz importa.Sua presença importa.Você não precisa desaparecer para preservar a paz de ninguém.Que Deus nos sabedoria para reconhecer quando estamos escolhendo o silêncio por maturidade e quando estamos nos calando porque fomos fazendo de nós mesmos uma pessoa que pede desculpas por existir.

Uma oração: “Senhor, ajuda-me a não perder quem eu sou tentando agradar ou preservar a paz com as pessoas. Dá-me sabedoria para saber quando silenciar e quando preciso falar. Ensina-me a colocar limites sem perder o amor, e a cuidar de mim sem culpa. Que eu nunca me acostume a diminuir minha própria existência para que alguém aceite a minha presença. E, quando eu estiver cansada demais para falar, que o Senhor conheça aquilo que existe dentro do meu coração. Amém.”

Se este texto falou com você, curta, comente e compartilhe. Talvez alguém esteja vivendo exatamente isso em silêncio.

Sandra Rochedo

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