Antes de concordarmos ou discordarmos de uma religião, precisamos primeiro conhecê-la.
Muitas vezes ouvimos alguém dizer: “os espíritas acreditam nisso”, “aquela religião faz aquilo”, “eles adoram os mortos”, “eles não acreditam em Deus”, “isso é tudo a mesma coisa”. Mas será que é mesmo? Foi pensando nisso que decidi começar uma nova sequência aqui no blog. Não para atacar nenhuma religião, muito menos para desrespeitar quem segue uma crença diferente da minha, mas para procurar entender o que cada doutrina realmente ensina.Porque existe uma diferença enorme entre conhecer uma religião e simplesmente repetir aquilo que ouvimos sobre ela.E para começar essa sequência, vamos falar sobre o Espiritismo.
Afinal, o que é o Espiritismo?
O Espiritismo surgiu na França do século XIX e está diretamente ligado ao trabalho de Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail. Em 1857, Kardec publicou O Livro dos Espíritos, obra considerada fundamental para a codificação da Doutrina Espírita. Posteriormente vieram outras obras que passaram a compor a chamada Codificação Espírita: O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. Segundo fontes espíritas, a doutrina procura estudar a natureza, a origem e o destino dos Espíritos e suas relações com o mundo material. Ela se apresenta como uma doutrina de caráter filosófico, científico e de consequências morais ou religiosas, dependendo da definição utilizada. E aqui já encontramos uma coisa que muitas pessoas talvez não saibam.
O Espiritismo acredita em Deus? Sim. Essa é uma das primeiras ideias que precisamos esclarecer. Dentro da Doutrina Espírita, Deus ocupa uma posição central. O Livro dos Espíritos apresenta Deus como a inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas. Portanto, dizer simplesmente que “espírita não acredita em Deus” não corresponde ao que a própria doutrina ensina. Isso não significa, porém, que a compreensão espírita sobre Deus seja exatamente igual à compreensão encontrada em todas as vertentes do cristianismo.
E é justamente aí que precisamos aprender a fazer uma coisa importante: conhecer não significa necessariamente concordar.Eu posso conhecer aquilo em que outra pessoa acredita e continuar tendo a minha própria fé.
E Jesus? Os espíritas acreditam em Jesus? Sim. Jesus ocupa um lugar muito importante dentro do pensamento espírita. Materiais de divulgação espírita o apresentam como guia e modelo da humanidade. Porém, a maneira como o Espiritismo compreende Jesus possui diferenças importantes em relação à teologia cristã tradicional. E essa será uma questão que merece um texto próprio nesta série, porque tentar explicar tudo em poucas linhas poderia deixar justamente aquilo que queremos esclarecer ainda mais confuso.
E a reencarnação? Aqui chegamos a um dos pontos mais conhecidos da Doutrina Espírita. A reencarnação é um dos princípios fundamentais apresentados pelo Espiritismo. A doutrina ensina que o Espírito sobrevive à morte do corpo físico e passa por diferentes existências corporais em um processo de aprendizado e progresso. É por isso que, para o pensamento espírita, a existência humana não termina com a morte física. Essa compreensão também influencia a maneira como a doutrina interpreta o sofrimento, as diferenças entre as pessoas e determinadas situações da vida. Mas é importante não confundir esse conceito com tudo aquilo que popularmente chamamos de “carma”. Existem diferenças entre os conceitos, e isso também merece ser explicado separadamente.
E os mortos? Os espíritas adoram os mortos? Essa talvez seja uma das maiores confusões. O Espiritismo acredita na sobrevivência do Espírito após a morte e na possibilidade de comunicação entre o mundo espiritual e o mundo material. A mediunidade ocupa, portanto, um lugar importante dentro da doutrina. Mas dizer simplesmente que “espíritas adoram os mortos” não é uma descrição fiel daquilo que a própria Doutrina Espírita afirma praticar. Materiais espíritas deixam claro que suas reuniões e práticas não utilizam altares, imagens, velas, procissões, sacramentos ou outros elementos de culto exterior. Isso não significa que precisamos aceitar a explicação espírita sobre comunicação com os mortos. Significa apenas que, antes de criticarmos uma crença, devemos procurar saber o que os próprios seguidores daquela crença dizem que fazem.
Então o Espiritismo é uma religião? Essa pergunta não é tão simples quanto parece. O próprio Allan Kardec utilizou diferentes formulações para explicar a natureza do Espiritismo, e a tradição espírita costuma destacar seus aspectos filosófico, científico e moral/religioso. Por isso, dependendo da definição utilizada para a palavra “religião”, encontramos diferentes maneiras de responder à pergunta. Mais importante do que entrar em uma disputa de palavras é compreender o conteúdo da doutrina.
O que podemos aprender com isso? Talvez a principal lição deste primeiro texto seja justamente esta: não devemos formar uma opinião sobre aquilo que nunca procuramos conhecer. Podemos discordar. Podemos comparar. Podemos questionar. Podemos até chegar à conclusão de que determinada doutrina não combina com aquilo em que acreditamos. Mas fazer tudo isso depois de conhecer é muito diferente de repetir comentários, preconceitos ou informações que recebemos de terceiros. Eu sou cristã e tenho a minha fé, minhas convicções e a maneira como compreendo a Bíblia e Jesus Cristo. Isso não me impede de conhecer aquilo em que outra pessoa acredita. Pelo contrário. Conhecer outras crenças pode nos ajudar inclusive a compreender melhor por que acreditamos naquilo que acreditamos. E essa será a proposta desta nova sequência aqui no blog. Não quero transformar estes textos em uma guerra religiosa. Quero conversar. Quero pesquisar. Quero esclarecer. Quero separar aquilo que uma doutrina realmente ensina daquilo que as pessoas simplesmente dizem que ela ensina. Porque respeitar uma pessoa não significa obrigatoriamente concordar com sua crença. E discordar de uma doutrina também não nos dá o direito de desrespeitar quem a segue.
Para refletir: Antes de dizer “eu sei no que aquela religião acredita”, talvez devêssemos perguntar: “Eu realmente conheço a doutrina ou apenas ouvi alguém falar sobre ela?” Às vezes, a informação que recebemos passou por tantas pessoas que, quando chega até nós, já não representa mais aquilo que foi ensinado originalmente. Por isso, nesta série, vamos fazer diferente. Vamos conhecer primeiro. Depois, vamos comparar. E então cada leitor poderá tirar suas próprias conclusões. Conhecer não enfraquece a nossa fé. Conhecer nos ajuda a ter consciência daquilo em que realmente acreditamos.
Uma palavra final: Esta série não tem como objetivo atacar pessoas, religiões ou crenças. O propósito é informar, esclarecer e promover conhecimento, apresentando, sempre que possível, aquilo que as próprias tradições ensinam. E quando houver diferenças entre uma determinada doutrina e a fé cristã bíblica, também poderemos falar sobre elas com respeito, sem transformar a diferença em ofensa. Porque acredito que podemos conversar sobre assuntos sérios sem precisar desrespeitar ninguém. Conhecer antes de julgar. Entender antes de criticar. E respeitar mesmo quando pensamos diferente.
Sandra Rochedo,
Blog, S R Testemunhos, Transformar Limites.
Curta, comente e compartilhe. Talvez alguém precise ler este texto antes de formar uma opinião sobre aquilo que ainda não conhece.





