Existe uma diferença muito grande entre fazer algo por alguém porque queremos e fazer porque sentimos que somos obrigados. À primeira vista, pode parecer a mesma coisa.Afinal, se eu ajudo alguém, o que importa é que eu ajudei, não é? Nem sempre.A maneira como fazemos alguma coisa também importa.Existe uma grande diferença entre ajudar com carinho e ajudar carregando ressentimento.Entre estar presente porque queremos e estar presente porque somos cobrados.Entre cuidar porque nos importamos e cuidar porque alguém decidiu que essa é uma obrigação nossa.E talvez seja justamente aí que muitas relações começam a ficar pesadas.
Consideração não é obrigação: Ter consideração por alguém significa pensar naquela pessoa, respeitar seus sentimentos, perceber suas necessidades e, quando pudermos, oferecer ajuda. Mas consideração não significa estar disponível o tempo inteiro. Não significa abandonar nossas próprias necessidades para atender às necessidades dos outros. Não significa dizer sim para tudo. E muito menos significa que alguém passa a ter direito sobre o nosso tempo, nossa energia ou nossa vida simplesmente porque um dia fizemos alguma coisa por essa pessoa. Ajudar é bonito. Cuidar é bonito. Estar presente é bonito. Mas quando essas atitudes deixam de nascer do amor e passam a ser exigidas como obrigação, alguma coisa muda.
Quando o “eu faço porque quero” vira “eu tenho que fazer”: Quantas vezes já ouvimos frases como: “Mas você sempre fez.” “Você sempre me ajudou.” “Agora você não vai fazer?” “Você tem que entender.” “Depois de tudo que eu fiz por você…” São frases que podem carregar uma cobrança muito grande. E, muitas vezes, quem escuta acaba sentindo culpa por não conseguir continuar fazendo aquilo que fazia antes. Mas precisamos entender que as pessoas também mudam. As circunstâncias mudam. Nossa disposição muda. Nossa saúde muda. Nossas prioridades mudam. Aquilo que conseguíamos fazer alguns anos atrás talvez hoje já não seja possível .E isso não significa necessariamente que deixamos de amar alguém. Às vezes, simplesmente chegamos ao nosso limite.
Amor não deveria ser uma dívida: Existe uma coisa que precisamos aprender: amor não deveria funcionar como uma conta bancária. “Eu fiz isso por você, então agora você precisa fazer aquilo por mim.” “Eu estive com você naquela situação, então você é obrigado a estar comigo agora.” “Eu ajudei você, portanto você me deve.” Isso transforma uma atitude de carinho em uma espécie de dívida emocional. E relacionamentos baseados em dívidas emocionais acabam se tornando pesados. É claro que devemos reconhecer quem esteve ao nosso lado. Devemos agradecer. Devemos valorizar. Devemos retribuir quando pudermos. Mas existe uma diferença entre gratidão e obrigação. Gratidão nasce do reconhecimento. Obrigação imposta nasce da cobrança.
Também precisamos aprender a receber: Existe outro lado dessa história. Algumas pessoas têm tanta dificuldade em receber ajuda que acabam acreditando que precisam fazer alguma coisa em troca imediatamente. Recebem um favor e já pensam: “Agora eu preciso retribuir.” Recebem carinho e sentem que estão devendo. Recebem ajuda e ficam procurando uma maneira de compensar. Mas nem todo gesto precisa ser devolvido imediatamente. Às vezes, podemos simplesmente dizer: “Obrigada.” E guardar aquele carinho no coração. Um dia talvez tenhamos a oportunidade de ajudar aquela mesma pessoa. Ou talvez ajudemos outra. Porque o bem também pode circular.
Fazer pelos outros não significa esquecer de si: Precisamos tomar cuidado para não transformar consideração em autoabandono. Há pessoas que passam tanto tempo cuidando dos outros que esquecem de perguntar: “E quem está cuidando de mim?” Elas resolvem os problemas de todo mundo. Escutam todo mundo. Ajudam todo mundo. Estão disponíveis para todo mundo. Mas quando precisam de alguma coisa, percebem que não existe ninguém disponível para elas. Isso dói. E muitas vezes essa dor começa justamente porque ensinamos as pessoas que estaremos sempre disponíveis. Por isso, colocar limites também é uma forma de consideração. Consideração por nós mesmos.
Dizer “não” não significa falta de amor: Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de aprender. Podemos amar alguém e dizer não. Podemos nos importar e não conseguir ajudar. Podemos querer estar presentes e precisar descansar. Podemos compreender o problema de alguém sem assumir aquele problema como nosso. Podemos ouvir sem resolver. Podemos apoiar sem carregar. E podemos dizer: “Eu gostaria de ajudar, mas dessa vez não consigo.” Isso não nos torna pessoas ruins. Isso nos torna seres humanos com limites.
E quando a pessoa só nos considera quando precisa? Também precisamos prestar atenção nisso. Existem relações em que a consideração parece existir somente quando somos úteis. Enquanto estamos ajudando, somos lembrados. Quando precisamos de alguma coisa, desaparecem. Quando temos algo para oferecer, somos importantes. Quando precisamos receber, somos esquecidos. Isso pode acontecer em amizades, famílias e até dentro de relacionamentos muito próximos. E quando percebemos esse padrão, precisamos parar e refletir. Será que existe reciprocidade? Será que essa pessoa se importa comigo ou apenas com aquilo que posso fazer por ela? Será que existe carinho ou apenas conveniência? São perguntas difíceis, mas necessárias.
Consideração precisa ser espontânea: Não podemos obrigar alguém a se importar. Podemos conversar. Podemos explicar o que sentimos. Podemos pedir respeito. Podemos estabelecer limites. Mas consideração verdadeira precisa nascer de dentro. Ela aparece quando alguém pensa: “Será que isso vai machucar?” “Será que estou incomodando?” “Será que essa pessoa precisa de ajuda?” “Será que eu também posso fazer alguma coisa por ela?” É esse pequeno exercício de olhar além de nós mesmos que transforma uma convivência.
Que tipo de pessoa queremos ser? Talvez essa seja a pergunta mais importante. Queremos ser pessoas que só ajudam quando recebem alguma coisa em troca? Queremos ser pessoas que cobram tudo o que fizeram? Queremos ser aquelas que lembram dos outros apenas quando precisam? Ou queremos ser pessoas que fazem o bem porque acreditam que o bem importa? Eu acredito que podemos aprender a fazer as coisas por amor, sem transformar amor em cobrança. Podemos agradecer sem criar dívidas. Podemos ajudar sem controlar. Podemos receber sem culpa. Podemos dizer não sem deixar de amar. E podemos cuidar dos outros sem deixar de cuidar de nós. Porque consideração verdadeira não aprisiona. Ela respeita. E quando existe respeito, ninguém precisa viver sentindo que está em dívida com o outro. Uma pequena reflexão: Antes de cobrar alguém por aquilo que fez ou deixou de fazer, talvez seja importante perguntar: “Eu estou pedindo consideração ou estou exigindo uma obrigação?” E antes de aceitar fazer alguma coisa apenas por culpa, talvez devêssemos perguntar: “Estou fazendo isso porque quero ou porque tenho medo de decepcionar alguém?” Nem sempre precisamos dizer sim para provar que amamos. Às vezes, o amor também sabe colocar limites. E talvez uma das maiores formas de consideração que podemos aprender seja esta: não exigir do outro aquilo que ele já não consegue oferecer, mas também não permitir que exijam de nós aquilo que ultrapassa os nossos limites.
Oração: “Senhor, ensina-me a ajudar sem esperar recompensas. Ensina-me a receber sem culpa. Ensina-me a agradecer sem transformar carinho em dívida. Dá-me sabedoria para reconhecer os meus limites e coragem para dizer não quando for necessário. Que eu não use aquilo que fiz por alguém como instrumento de cobrança e também não permita que usem contra mim aquilo que um dia fiz com amor. Ajuda-me a compreender que cuidar dos outros é importante, mas cuidar de mim também é. Que minhas atitudes sejam feitas por amor, respeito e consideração, e não por obrigação. Amém.
Sandra Rochedo,
Blog, S R Testemunhos, Transformando Limites.
“Consideração é fazer por amor aquilo que poderíamos simplesmente escolher não fazer por obrigação.” Se este texto falou com você, curta, comente e compartilhe.





