Existem dores que não vêm de pessoas desconhecidas.
Elas vêm justamente de quem dizia caminhar ao nosso lado, de quem falava sobre amor, comunhão, cuidado e fé.
E talvez seja isso que torne certas feridas tão difíceis de cicatrizar.
Hoje, pensando em tudo o que vivi no período em que estivemos em Salvador, percebo o quanto fui prejudicada emocionalmente, fisicamente e até financeiramente por confiar nas pessoas erradas.
Nós não fomos para Salvador por vontade própria ou interesse pessoal.
Fomos enviados pela nossa liderança. O casal que estava lá ligava constantemente pedindo para serem substituídos, porque já não aguentavam mais permanecer naquele lugar e queriam ir embora.
Como nós já viajávamos para lá frequentemente para implantar a escola ministerial, surgiu o convite para assumirmos a congregação.
Meu esposo aceitou e, depois de um tempo, eu também concordei.
Mudamos acreditando que estávamos obedecendo a um propósito.
Mas o que não sabíamos era que, enquanto nos preparávamos para assumir a congregação, a esposa do rapaz havia criado um grupo no WhatsApp para conversar com membros da igreja.
E nessas conversas ela fazia parecer que eles estavam sendo “tirados” do lugar por nossa causa, como se tivéssemos provocado aquela substituição.
Alguns casais tomaram as dores deles sem nem nos conhecer de verdade.
Desde o primeiro dia fomos tratados com indiferença.
Tentamos de tudo para conquistar a simpatia das pessoas, para criar um ambiente de paz e união, mas nada adiantava.
Enquanto tentávamos construir, outros destruíam em silêncio através de conversas escondidas, fofocas, manipulações e desobediência.
Toda mudança que tentávamos implantar era imediatamente comunicada ao antigo casal, e eles orientavam as pessoas a não obedecerem nossas decisões. Os boicotes começaram.
As críticas começaram.
As calúnias contra meu esposo começaram.
E o meu maior erro talvez tenha sido permanecer calada.
Eu deveria ter comunicado tudo à liderança e pedido para voltar para casa enquanto ainda havia tempo.
Mas continuei insistindo, tentando ganhar a simpatia deles, acreditando que em algum momento perceberiam nossa sinceridade.
Só que algumas pessoas não querem paz.
Querem controle.
Foi nesse período que tive o primeiro AVC.
Mesmo assim, as provocações continuaram. Os tumultos continuaram.
A divisão dentro da congregação continuou.
Depois foi meu esposo quem precisou colocar um marcapasso.
E nem diante da nossa situação de saúde aquelas pessoas pararam.
O casal continuava mantendo contato diário com membros da congregação, alimentando conflitos, incentivando resistência e criando ainda mais desgaste emocional.
E eu, tentando consertar o que nunca esteve em minhas mãos consertar, fazia lanches, preparava jantares, abria as portas da minha casa para conversarmos e tentarmos nos acertar.
Mas quanto mais eu tentava me aproximar, mais fofocas surgiam.
Até que veio o segundo AVC.
E dessa vez fiquei com o lado esquerdo paralisado.
Mas as dores não pararam aí.
Depois descobri algo que me machucou profundamente:
enquanto eu trabalhava dedicadamente na escola ministerial, cuidando de escalas e organizando tantas responsabilidades, a liderança havia assinado a carteira de trabalho da própria filha alegando que ela trabalhava muito na escola — sendo que ela era apenas uma professora.
Eu não tinha carteira assinada.
Meu contrato era apenas de boca.
Acreditei na boa-fé. Confiei.
Me entreguei ao trabalho.
E quando precisei solicitar auxílio-doença, descobri que não tinha vínculo empregatício nenhum.
Enquanto alguns protegiam os seus, eu fiquei sem direitos.
E isso trouxe consequências até hoje.
Não consegui construir uma renda, perdi segurança financeira e fiquei marcada por escolhas feitas acreditando em pessoas que não tiveram a mesma honestidade comigo.
O mais difícil não foi apenas adoecer.
Foi perceber que pessoas que falavam tanto de Deus conseguiram agir pior do que muita gente do mundo.
E ainda houve quem se sentisse traído por ouvir verdades.
Mas traída fui eu.
Traída pela confiança depositada em pessoas invejosas, ciumentas e manipuladoras.
Traída por acreditar que sinceridade seria suficiente.
Traída por pensar que fazer o certo protegeria meu coração.
Hoje entendo que nem todo ambiente religioso é saudável.
Nem toda liderança é justa.
Nem toda pessoa que fala de amor conhece o verdadeiro significado dele.
Mas também aprendi algo importante:
sobreviver a tudo isso já foi uma vitória.
Mesmo ferida, continuo aqui.
Mesmo limitada fisicamente, continuo tentando recomeçar.
Mesmo decepcionada, ainda não perdi totalmente a capacidade de acreditar que Deus conhece a verdade que ninguém mais viu.
Porque no final, as pessoas podem distorcer histórias, espalhar versões convenientes e manipular situações…
mas Deus viu cada lágrima silenciosa derramada naquele tempo.
E isso ninguém pode apagar.
Oração:
“Senhor meu Deus,
Hoje eu coloco diante de Ti todas as dores que ficaram guardadas dentro do meu coração durante tantos anos. O Senhor conhece cada lágrima que derramei em silêncio, cada humilhação, cada injustiça, cada noite em que pensei que não suportaria continuar.
Tu sabes, Senhor, que eu confiei, me dediquei, servi e tentei fazer o melhor que podia. O Senhor viu quando tentei manter a paz, quando abri minha casa, quando procurei diálogo, quando escolhi permanecer firme mesmo sendo ferida por palavras, atitudes e traições.
Meu Deus, cura dentro de mim tudo aquilo que ainda machuca.
Cura as lembranças difíceis.
Cura a decepção.
Cura o sentimento de abandono.
Cura a revolta por ter sido injustiçada.
Cura também meu corpo, minhas limitações e o cansaço que ficou depois de tantas batalhas.
Não permita que a maldade das pessoas destrua completamente a minha capacidade de acreditar no bem. Me ajuda a não carregar ódio dentro de mim, porque eu sei que esse peso só aumenta ainda mais a dor.
Entrega justiça nas Tuas mãos, Senhor.
Tu conheces toda a verdade, mesmo aquela que foi escondida, distorcida ou negada. Eu não preciso viver tentando provar nada para todos, porque o Senhor viu cada situação desde o começo.
Me fortalece para continuar.
Me dá paz para os dias difíceis.
Me dá sabedoria para recomeçar.
Me dá esperança quando o coração desanimar.
E acima de tudo, não deixa que eu perca minha fé em Ti por causa das atitudes humanas. Que eu consiga separar o Teu amor das falhas das pessoas.
Obrigada, Senhor, porque mesmo em meio a tanta dor, eu sobrevivi.
Amém.”
Pastora Sandra Rochedo,
Blog, S R Testemunhos, Transformando Limites.





