Quando a vida muda, a rotina também precisa mudar:
Tem coisas que a gente só entende quando a vida nos coloca diante delas.
Antes dos meus AVCs, eu tinha uma rotina diferente. Eu cuidava de muitas coisas dentro de casa e, mesmo quando tínhamos alguém para nos ajudar, eu estava ali, participando, organizando, acompanhando tudo. Mas então vieram os AVCs. E, de repente, eu fiquei paralisada. Não foi apenas o meu corpo que precisou se adaptar. A nossa rotina inteira precisou encontrar uma nova maneira de funcionar. Meu esposo passou a assumir responsabilidades que antes eram minhas. Naquela época, nós ainda morávamos em Salvador e tínhamos uma pessoa que nos ajudava em casa. Ela chegava cedo, preparava nosso café da manhã, arrumava a casa, cuidava do quintal e também do nosso cachorro, que havia ido conosco para Salvador. Ela era muito caprichosa. Cuidava do café da manhã, do almoço, do lanche e até do jantar antes de ir embora. E, quando terminava o dia de trabalho, meu esposo ainda a levava para casa. Ela ficou conosco durante um ano, mas precisou sair porque estava grávida e já estava perto de ter o bebê. Depois conseguimos outra pessoa, também muito boa e caprichosa. Quando voltamos para o Rio de Janeiro, também tivemos alguém que cuidava da casa, ajudava na alimentação e também me auxiliava nas minhas necessidades. Depois de aproximadamente um ano, ela precisou sair e conseguimos outra pessoa. E assim fomos vivendo. Mas quando viemos morar em Curitiba, a realidade mudou. Hoje somos apenas nós dois. Temos uma pessoa que vem nos ajudar com a limpeza da casa de quinze em quinze dias, e isso já é uma grande ajuda. Mas o restante da rotina fica conosco. E aí entra uma parte que muita gente talvez não imagine. Meu esposo prepara o café da manhã. Cuida de muitas coisas da casa. E, quando precisa, também cuida da alimentação. Às vezes eu ainda vou para a cozinha. Eu gosto. Tenho vontade de fazer as coisas. Mas meu corpo não acompanha todas as minhas vontades. Não consigo permanecer muito tempo em pé. Para fazer alguma coisa no fogão, preciso de uma cadeira. E mesmo assim preciso respeitar meus limites. Porque uma coisa é querer fazer. Outra é conseguir fazer. E foi aí que aprendemos mais uma vez a nos adaptar. Como atualmente não temos condições de ter uma pessoa nos ajudando em tempo integral, encontramos outra solução. Às vezes meu esposo compra quentinhas em um restaurante onde ele presta serviços. O dono do restaurante faz um desconto para ele por causa dos serviços que presta ao casal. E vou contar uma coisa: a comida é muito boa! Então, enquanto não podemos ter alguém todos os dias para cuidar da nossa alimentação, vamos nos organizando como podemos. E está tudo bem. Acho que essa é uma das coisas que a vida foi me ensinando depois dos AVCs: nem tudo precisa continuar sendo feito da mesma maneira para continuar dando certo. Durante muito tempo, talvez a gente pense que precisa manter a vida exatamente como ela era. A casa precisa funcionar como funcionava. A comida precisa ser feita como sempre foi. A mulher precisa continuar fazendo tudo o que fazia antes. O marido precisa continuar fazendo apenas aquilo que sempre fez. Mas a vida não funciona assim. Existem fases em que os papéis mudam. Existem momentos em que um precisa carregar um pouco mais porque o outro não consegue. E também existem momentos em que precisamos aceitar ajuda sem sentir que estamos fracassando. Eu precisei aprender isso. Hoje, se não consigo ficar muito tempo na cozinha, não significa que deixei de cuidar da minha casa. Se compramos uma quentinha, não significa que estamos fazendo algo errado. Se precisamos de alguém para limpar a casa, não significa que somos incapazes. Significa apenas que estamos vivendo uma fase diferente. E talvez essa seja uma das maiores lições que o casamento pode ensinar:
amar também é se adaptar. Meu esposo precisou aprender a fazer coisas que antes não fazia.Eu precisei aprender a aceitar que nem sempre conseguiria fazer aquilo que fazia antes.E juntos fomos encontrando o nosso jeito de continuar.Não é a rotina perfeita.Não é a casa perfeita.Não é a alimentação perfeita.É simplesmente a nossa vida.E, dentro das possibilidades que temos hoje, vamos fazendo o melhor que conseguimos.Tem dias em que ele cozinha.Tem dias em que compramos a quentinha.Tem dias em que eu consigo ir para a cozinha e fazer alguma coisa sentada.Tem dias em que meu corpo simplesmente diz: hoje não. E tudo bem.Porque depois de tudo o que já vivemos, aprendi a não transformar cada limitação em uma derrota.Às vezes, uma quentinha pode parecer apenas uma quentinha.Mas, para nós, ela também representa praticidade, economia, parceria e uma maneira de não sobrecarregar ainda mais quem já carrega tantas responsabilidades.E é por isso que continuaremos comprando nossas quentinhas na Casa do Tio, enquanto essa for uma solução boa para nós.Talvez amanhã nossa realidade seja outra.Talvez consigamos novamente ter alguém nos ajudando mais vezes.Talvez eu consiga fazer mais coisas na cozinha.Talvez não. Mas uma coisa eu sei: não precisamos esperar a vida voltar a ser como era para agradecer pela vida que temos hoje.Deus não prometeu que todos os nossos dias seriam iguais.Mas Ele continua sendo Deus em todas as fases.Na época em que tínhamos pessoas nos ajudando em casa.Na época em que eu conseguia fazer mais.Na época em que meu esposo precisou assumir novas responsabilidades.E agora, quando somos nós dois tentando encontrar o nosso jeito de viver. Talvez maturidade seja justamente isso: entender que algumas coisas mudam, alguns papéis mudam, algumas rotinas mudam… mas o amor, o cuidado e a gratidão podem continuar. E, enquanto houver café na mesa, uma quentinha chegando, uma casa para chamar de nossa e alguém ao nosso lado para dividir a vida, temos muito pelo que agradecer.
Uma oração: “Senhor, Obrigada porque Tu estás conosco em todas as fases da nossa vida. Ajuda-nos a aceitar as mudanças sem perder a gratidão. Ensina-nos a respeitar nossos limites sem nos sentirmos incapazes e a receber ajuda sem vergonha. Dá-nos sabedoria para encontrar soluções dentro das nossas possibilidades e força para continuarmos caminhando juntos. Abençoa o nosso lar, o nosso casamento e cada pessoa que, de alguma maneira, já nos ajudou ao longo da nossa caminhada. Que nunca nos falte amor, companheirismo, alimento na mesa e, principalmente, a Tua presença dentro da nossa casa. Amém.”
Se essa história falou com você, curta, comente e compartilhe. Talvez alguém esteja precisando entender que mudar a maneira de fazer as coisas não significa deixar de cuidar.
Sandra Rochedo, Blog, S R Testemunhos — histórias reais, limites reais e um Deus que continua presente em todos eles.
Para continuar essa conversa no S R Testemunhos:
- [Quando consideração vira egoísmo] — porque dentro de uma relação também precisamos aprender a perceber quando o outro está carregando peso demais.
- [Casamento não é perfeito, é construído] — porque a vida a dois é feita justamente dessas adaptações, responsabilidades e escolhas diárias.
- [Quando eu parei de tentar ser a Sandra que eu achava que precisava ser] — uma reflexão sobre reconhecer a pessoa que somos hoje, sem apagar tudo o que fomos.





