Você já chegou perto de alguém para pedir alguma coisa e, antes mesmo de abrir a boca, percebeu aquela expressão no rosto da pessoa? Um olhar diferente. Um suspiro. Uma cara de quem pensa: “Lá vem ela de novo… O que será que ela quer agora?” Talvez a pessoa nem tenha percebido o que fez. Talvez não tenha sido sua intenção. Mas você percebeu. E aquilo fica. Depois de algumas situações assim, algo curioso começa a acontecer. Você passa pelo mesmo lugar e já vai meio na defensiva. “Não quero nada não.” “Só vim pegar uma coisa.” “É rapidinho.” “Já estou saindo.” Como se precisasse avisar antes que alguém reclamasse da sua presença. E, aos poucos, sem perceber, você começa a sentir que pedir alguma coisa é incomodar. Que precisar de alguém é ser pesada. Que chegar perto é ser chata. Que depender de alguém, ainda que por alguns minutos, faz de você um estorvo. Mas será que é realmente assim?
Quando o olhar do outro começa a falar dentro da nossa cabeça: Existem pessoas que não sabem dizer “não” com delicadeza. Outras estão cansadas, preocupadas, ocupadas ou simplesmente não têm paciência naquele momento. E existem aquelas que realmente fazem questão de demonstrar que estão incomodadas. Mas nenhuma dessas situações deveria definir quem você é. Uma pessoa pode não querer ou não poder ajudar. Isso faz parte da vida. O problema está quando a maneira de demonstrar isso faz o outro se sentir pequeno, inconveniente ou culpado por ter precisado pedir. Porque existe uma grande diferença entre dizer: “Hoje não consigo.” e fazer alguém sentir: “Você está me incomodando novamente.” Talvez aquela pessoa que pede seja alguém que, durante muitos anos, ajudou todo mundo. Talvez seja alguém que sempre resolveu as próprias coisas. Talvez seja uma mulher que passou a vida cuidando de filhos, marido, pais, casa, trabalho e tantas outras pessoas. E talvez agora ela simplesmente precise de uma mão. Precisar não diminui ninguém. Todos nós, em algum momento da vida, precisamos. Precisamos de uma palavra. De um favor. De companhia. De alguém que alcance alguma coisa. De alguém que nos acompanhe. De alguém que simplesmente diga: “Pode deixar, eu te ajudo.” E quando recebemos uma expressão de impaciência justamente nesse momento, podemos acabar guardando uma conclusão que não deveríamos: “Eu sou um peso.” Não. Você está apenas precisando de ajuda naquele momento. Existe uma diferença enorme.
Não transforme a cara do outro na sua identidade: Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de aprender. Quando alguém nos trata como se estivéssemos incomodando, nossa primeira reação pode ser diminuir nossa presença. Falamos menos. Pedimos menos. Evitamos passar por determinados lugares. Começamos a pensar duas vezes antes de chamar alguém. E até quando precisamos de alguma coisa, já chegamos dizendo: “Não quero nada não…” Como se estivéssemos nos defendendo de uma acusação que ninguém sequer fez em voz alta. Mas a expressão de alguém não é um documento dizendo quem você é. Você não é chata porque precisou pedir. Você não é pesada porque precisou de ajuda. Você não é um estorvo porque alguém estava sem disposição para atender você. E, principalmente, você não precisa se desculpar por existir. Claro que também precisamos ter bom senso. Respeitar o tempo dos outros. Entender quando alguém não pode. Aprender a fazer aquilo que conseguimos sozinhas. Mas isso não significa viver com medo de precisar.
E quando somos nós do outro lado? Essa reflexão também serve para nós.
Porque talvez, sem perceber, alguma vez alguém tenha chegado perto de nós e recebido justamente aquela expressão que tanto nos machuca. Talvez tenhamos suspirado. Talvez tenhamos feito uma cara feia. Talvez tenhamos pensado: “De novo?” E nem percebemos o que provocamos naquela pessoa. Por isso, antes de demonstrar impaciência, vale lembrar: quem está diante de nós pode estar apenas precisando de um pouco de ajuda. E amanhã pode ser a nossa vez. A vida tem dessas coisas. Hoje alguém precisa da nossa mão. Amanhã podemos ser nós procurando uma mão para segurar.
Uma reflexão para guardar: Não permita que a impaciência de alguém faça você acreditar que é um peso. E também não permita que a sua própria impaciência faça outra pessoa se sentir assim. Podemos aprender a dizer “não” sem humilhar. Podemos pedir sem nos sentir culpadas. Podemos ajudar sem fazer o outro se sentir um incômodo. Porque, no final das contas, ninguém deveria ter vergonha de precisar de alguém de vez em quando. Somos humanos. E humanos precisam uns dos outros. Talvez o mundo não precise de grandes gestos o tempo todo. Às vezes, ele só precisa de alguém que, quando você chegar perto, em vez de fazer uma cara de incômodo, simplesmente diga: “O que você precisa?” E isso pode mudar completamente o dia de alguém.
Oração: “Senhor, Ensina-me a não medir meu valor pela maneira como outras pessoas reagem à minha presença. Quando eu precisar de ajuda, dá-me humildade para pedir sem vergonha. Quando alguém precisar de mim, dá-me sensibilidade para acolher sem fazer essa pessoa se sentir um peso. Que eu saiba dizer “não” quando necessário, mas que consiga fazê-lo com respeito e carinho. Livra-me de carregar culpas que não são minhas e ajuda-me também a perceber quando minhas atitudes podem estar ferindo alguém. Que eu nunca me esqueça de que todos nós precisamos uns dos outros em algum momento. E que eu possa ser, na vida de alguém, aquela presença que traz alívio e não constrangimento. Amém.” Você não é um estorvo porque precisa de ajuda.
Você é humana. E todos nós precisamos de alguém às vezes.
— Sandra Rochedo,
Blog, S R Testemunhos, Transformando Limites.
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