Há alguns dias, comecei a sentir uma dor muito forte no meu pé direito. Não era um incômodo qualquer. Era uma dor intensa, daquelas que impedem até de colocar o pé no chão. Cada tentativa de apoiar o pé vinha acompanhada de um choque de dor, e junto com ela vinham também os pensamentos.
A dor no corpo quase nunca vem sozinha. Ela costuma puxar lembranças, cansaços acumulados, emoções guardadas e perguntas que não estavam tão visíveis assim.
Ontem, pedi ao meu marido que comprasse uma pomada para massagem — algo simples, tipo “doutorzinho” mesmo — e um analgésico. Quando ele chegou da farmácia, usei o bálsamo bengué, fiz uma massagem no pé e coloquei uma meia para aquecer. À noite, antes de dormir, passei a pomada novamente.
Mas não foi só isso.
Eu orei.
Declarei a Palavra.
Conversei com Deus do meu jeito, como quem já está cansada de explicar tudo e apenas se derrama.
Hoje pela manhã, acordei sem dor. Consegui colocar o pé no chão. Caminhei. Aquilo que ontem parecia impossível, hoje já não estava mais ali.
E eu creio, de todo o coração, que a cura se manifestou na junção das coisas: o cuidado simples, a pomada, o descanso… e a oração. Deus usa meios. Ele sempre usou. O azeite, a água, o barro, o toque, a fé. Nada disso anula o sobrenatural — pelo contrário, revela um Deus que cuida também do detalhe.
Mas preciso confessar algo.
Na hora da dor, eu fiquei braba.
Braba de verdade.
Pensei: “Senhor, tanta coisa ruim acontecendo… o que foi que eu fiz de errado? Por que mais isso? Estou sendo castigada?”
Esses pensamentos não nos tornam menos espirituais. Nos tornam humanas.
Existe uma teologia silenciosa da dor que tenta nos convencer de que todo sofrimento é punição.
Como se Deus estivesse sempre com um caderno na mão, anotando erros e distribuindo dores como castigo. Mas isso não reflete o caráter de um Pai amoroso.
Nem toda dor é correção.
Nem todo sofrimento é castigo.
Nem todo processo é consequência de pecado.
Às vezes, é apenas a vida em um corpo frágil, em um mundo quebrado, sendo sustentada por um Deus fiel.
Jesus mesmo nos ensinou isso quando disseram que um homem era cego por causa do pecado dele ou dos pais.A resposta foi clara:“Não foi por isso.”
Há dores que não carregam culpa, apenas carregam a oportunidade de Deus se revelar no cuidado, na presença e na restauração.
O problema é que, quando estamos cansadas emocionalmente, qualquer dor física parece a gota d’água. E aí o coração grita: “Até quando?”
Deus não se assusta com essas perguntas. Ele não se ofende com nossa honestidade. Ele prefere um coração sincero, ainda que cansado, do que um discurso bonito sem verdade.
Hoje, olhando para trás, entendo que aquela dor também revelou algo em mim: o quanto eu precisava parar, cuidar, respirar, orar sem pressa, e lembrar que Deus continua sendo bom — mesmo quando eu não entendo tudo.
A fé não nos impede de sentir dor.
Ela nos impede de permanecer nela.
Se você também tem passado por momentos assim — dores no corpo, na alma, na história — saiba: Deus não está te castigando. Ele está contigo. E muitas vezes, a cura começa no simples:
no cuidado diário, na oração sincera, no descanso permitido, na Palavra declarada mesmo com voz embargada.
Hoje eu caminho.
Hoje eu agradeço.
Hoje eu descanso nessa verdade: Deus cuida de mim, inclusive quando eu fico braba, cansada e cheia de perguntas.
Oração:
“Senhor,
Tu conheces o meu corpo, minhas dores e os pensamentos que passam pelo meu coração quando o cansaço chega.
Perdoa-me quando penso que estou sendo castigada, quando deixo a culpa falar mais alto do que a Tua graça.
Obrigada porque Tu és um Deus que cura, que cuida, que age no simples e no sobrenatural.
Obrigada porque mesmo quando eu reclamo, Tu permaneces fiel.
Toca cada área que ainda dói, no corpo e na alma.
Renova minhas forças, silencia as acusações e me lembra todos os dias que sou amada, não punida.
Em nome de Jesus, amém.”
pastora Sandra Rochedo,
Blog, S R Testemunhos, Transformando Limites.






